Ex-ministra do Planejamento e candidata ao Senado por São Paulo, Simone Tebet (PSB) defende que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) precisa superar resistências em sua campanha à reeleição, sobretudo no setor produtivo e entre agentes econômicos. Tebet afirma que é preciso “tranquilizar” e intensificar o diálogo com o mercado financeiro e o sistema bancário para reforçar o compromisso com responsabilidade fiscal de um eventual novo governo. A estratégia da campanha petista deve incluir, ainda, a busca por votos de indecisos, aproximação do agronegócio e do eleitorado feminino.
“Nós, da campanha nacional, precisamos tranquilizar o mercado, ter um diálogo claro com o mercado do que (o governo) vai fazer em relação à economia (em um eventual quarto mandato de Lula). E quando eu falo economia, estou falando do fiscal, da relação dívida/PIB (Produto Interno Bruto)”, diz a ex-ministra.
A avaliação é feita diante da preocupação de agentes com a trajetória da dívida pública. Segundo dados divulgados pelo Banco Central (BC) na semana passada, a dívida bruta do governo geral (DBBG) atingiu 81,9% do PIB em junho – alta de 10,26 pontos percentuais em relação a dezembro de 2022.
Ao longo do mandato, Lula tem evitado defender um ajuste fiscal pelo lado das despesas. Além disso, anunciou um pacote de “bondades” no início do ano, inclusive com medidas extraorçamentárias, que não afetam limites fiscais, mas preocupam pelo efeito no endividamento. Economistas alertam que o alto endividamento dificulta o controle da inflação pelo BC.
Para Tebet, a campanha precisa apresentar sinais concretos de responsabilidade fiscal e explicar como pretende criar condições para uma redução mais acelerada dos juros. “Isso depende de fatores externos, depende também de o mercado acreditar mais no Brasil, mas depende de atitudes nossas na economia”, afirma. Em sua avaliação, Lula está disposto a estreitar esse diálogo.
Segundo informações do jornal Valor Econômico, a campanha de Lula está preocupada com a forte resistência do empresariado ao chefe do Executivo e avalia que o petista errou ao não tentar furar essa bolha nos últimos anos.
A leitura de petistas é que, embora parte do mercado tenha ressalvas em relação ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na disputa presidencial, a rejeição a Lula permanece elevada e dificulta a conquista de apoios às vésperas da eleição de outubro.
Aproximação com agronegócio
Outro eixo apontado por Tebet é a aproximação com o agronegócio. A candidata diz ver espaço para ampliar o diálogo, especialmente com o setor sucroalcooleiro, que, segundo sua avaliação, foi altamente prejudicado pelo aumento de tarifas imposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mas beneficiado por medidas adotadas durante o terceiro mandato de Lula.
“Sei que há um certo reconhecimento (ao governo), não só das usinas, que hoje estão numa situação complicada, mas do setor”, afirma. “Mas se o sucroalcooleiro não reconhecer isso, então ele não vem (apoiar Lula). Pode pintar de ouro, que ele não vai, aí o problema é preconceito.”
Eleitorado feminino
O terceiro foco da estratégia, segundo Tebet, deve ser o eleitorado feminino, sobretudo mulheres de perfil mais conservador. “O grande fator para derrotar Flávio nas eleições é a mulher”, diz. A ex-ministra argumenta que esse grupo foi beneficiado por programas sociais dos governos petistas e pode ser decisivo na eleição. “É muito difícil uma família mais pobre ou de classe média não ter recebido algum benefício do governo Lula.”
Apesar disso, Tebet reconhece a dificuldade do campo progressista em dialogar com o eleitorado conservador, mas prevê que parte desses eleitores se abstenha da eleição. “Esse eleitorado conservador vem à custa do erro do adversário. A minha expectativa é que parte dele ou se abstenha – e para nós é melhor do que votar do lado de lá, ou acabe votando (em Lula).”
Tebet diz já ter apresentado essas avaliações diretamente ao presidente. Candidata à Presidência em 2022, a ex-ministra e ex-senadora teve sua candidatura ao Senado articulada por Lula, incluindo a mudança do colégio eleitoral, de Mato Grosso do Sul para São Paulo, e de partido, do MDB para o PSB. Uma das “missões” dadas por Lula a ela foi estreitar o diálogo com o setor produtivo, sobretudo com o agronegócio, e com o mercado. As informações são do jornal Valor Econômico.
