O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pretende ser uma espécie de “padrinho” da União Africana (UA) no G20, o bloco das 20 maiores economias do planeta que tem atualmente o Brasil na presidência. Não por acaso, ele começou suas viagens internacionais este ano pela África, onde o Brasil é visto como uma espécie de modelo, porque chegou aonde países africanos pretendem chegar. Depois de passar pelo Egito, onde desembarcou na quarta-feira (14), o presidente já chegou a Etiópia, onde o principal compromisso será uma participação na cúpula da UA.
Uma ala africanista do Itamaraty com a qual o jornal O Globo conversou se diz otimista, principalmente depois de anos de afastamento entre Brasil e África, mas insiste que o presidente Lula deve “atualizar” o discurso sobre o continente ao rearticular as relações entre os dois lados do Atlântico. Uma ideia também defendida pela doutora em Ciências Políticas pela UERJ Renata Albuquerque Ribeiro.
“Claro que é fundamental reconhecer a contribuição dos africanos para a formação do Brasil, mas hoje acho que o discurso-base das relações do Brasil com a África poderia estar mais voltado para o futuro, para o potencial existente nessas relações a partir da análise do que o continente é hoje: um continente jovem, aberto a novas tecnologias, com um mercado consumidor gigantesco”, destacou.
Quem acompanha o assunto sente falta, desde o início deste terceiro mandato do presidente, de um planejamento estratégico, algo mais concreto, para lidar com o continente de 54 países e uma população de cerca de 1,4 bilhão de pessoas, que Lula prometeu priorizar. Ao voltar a flertar com a África, o governo tem planos de dimensões políticas e comerciais. Toda a costa atlântica africana é muito relevante para o Brasil, até mesmo pelo posicionamento geográfico.
Na viagem a Angola, no ano passado, Lula falou que empresas brasileiras devem voltar a investir no continente. A ideia do governo é que o presidente faça a abertura política, mas encontre espaços a serem ocupados pelo setor privado. A questão do financiamento a empresas brasileiras ainda está sendo estudada “de maneira bastante aprofundada pelos setores econômicos do governo” e é um ponto importante nessa discussão.
“Certos mecanismos que foram usados no passado, como financiamentos à exportação, não estão mais disponíveis como antes. Isso não significa que não haja uma estratégia”, destacou uma fonte da Secretaria de África e Oriente Médio do Itamaraty, que preferiu não ser citado.
A ideia de que 2024 é o ano da África para o Brasil não empolga todos os diplomatas brasileiros, principalmente alguns que vivem, no dia a dia, as dificuldades de se estar em postos com poucos recursos e sublotados. Para se ter uma ideia, o Brasil tem somente na França e na Suíça 94 diplomatas, enquanto 84 atuam em todo o continente africano, que conta atualmente com 33 embaixadas e dois consulados-gerais. Há 12 embaixadas brasileiras com apenas um diplomata, sendo 10 delas na África: Abuja (Nigéria), Brazzaville (Congo), Cotonou (Benin), Harare (Zimbábue), Iaundê (Camarões), Kinshasa (República Democrática do Congo), Libreville (Gabão), Lomé (Togo), Malabo (Guiné Equatorial), Uagadugu (Burkina Faso); as outras duas são em Islamabad (Paquistão) e Daca (Bangladesh).
“Onde é que fica a tal politica para a África se você não dá condições materiais para pessoas executarem a politica do presidente? Queremos isso, é nossa obrigação, mas como vai ficar isso se a gente não tem pessoal?”, questionou o presidente da Associação e Sindicato dos Diplomatas Brasileiros (ADB), Arthur Nogueira, que também é embaixador na Zâmbia.
Segundo levantamento da ADB, com dados até janeiro, o Brasil tem 233 postos no exterior, entre embaixadas, missões, escritórios e consulados. Das 1.115 vagas fora do Brasil, 920 estão ocupadas. Basicamente, nos postos brasileiros que ficam nos EUA e na Europa Ocidental, em média, 95% das vagas estão preenchidas, enquanto em embaixadas africanas, a média é de 60%.
Recentemente, vagas foram cortadas, sobretudo em postos considerados importantes para a política externa brasileira. O presidente da ADB achou a medida muito positiva, mas diz que, no caso de postos na África, o certo seria preencher vagas desocupadas em vez de serem eliminadas.
As relações entre o sindicato dos diplomatas e a direção do Itamaraty não andam boas, inclusive por conta de outra recente decisão do ministério determinando que, até o meio do ano, diplomatas que estão no exterior há mais de seis anos voltem para Brasília. O motivo é, basicamente, a organização de três eventos, este ano e no ano que vem, que acontecerão no Brasil e são considerados estratégicos para o governo: as cúpulas do G20 e do Brics e a COP30. As informações são do jornal O Globo.
