O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a dizer que a proposta de paz feita pela Ucrânia para tentar pôr fim à invasão da Rússia ao país seria uma “rendição da Rússia”. Antes de deixar à Itália, onde se encontrou com o papa Francisco e com a primeira-ministra do país, Giorgia Meloni, Lula foi questionado por jornalistas italianos se estava de acordo com as condições de paz propostas pela Ucrânia – a “fórmula da paz” de Zelenski.
A proposta prevê a retirada total das tropas russas e devolução do território ocupado, entre outros pontos. Assim como fez em outras ocasiões, o presidente brasileiro disse que a proposta equivale a uma rendição russa.
“Um acordo de paz não é uma rendição”, respondeu Lula. “No acordo de paz, os dois envolvidos têm que ceder em alguma coisa, senão não tem acordo. Se tem uma proposta em que alguém tem que ceder 100%, não é acordo, é imposição. E quem sabe o que é necessário para ter acordo são os ucranianos e os russos, não sou eu brasileiro, muito menos qualquer pessoa que não seja russa nem ucraniana.”
A recorrente fala de Lula sobre a suposta “rendição russa” ecoa o discurso do presidente russo, Vladimir Putin, e já foi criticada por especialistas em relações internacionais.
A Rússia invadiu a Ucrânia e ocupou ilegalmente territórios ucranianos. Dizer que um plano de paz que inclua a retirada das tropas russas e a devolução de território ocupado ilegalmente é “rendição” cria uma falsa equivalência entre agredido e agressor.
Analistas também dizem que esse posicionamento de falsa neutralidade atrapalha a relação do Brasil com países ocidentais que defendem a total retirada russa de território ucraniano.
Cessar-fogo
Lula também propôs nessa quinta-feira (22) que a guerra na Ucrânia seja paralisada com um cessar-fogo como condição para o início das negociações de paz entre Kiev e Moscou. Lula sugeriu que os soldados ucranianos e russos devem “parar de atirar” para dar início a conversas em que cada lado na guerra ceda um pouco de sua posição inicial.
O presidente afirmou que busca a formação de um grupo de países “não alinhados” para sugerir mecanismos de resolução diplomática do conflito. Segundo ele, a abordagem conjunta para o cessar-fogo e posterior mesa de negociação envolveria Brasil, China, Índia, Indonésia, México e Argentina, além de representantes da África.
“É preciso colocar os atores numa mesa de negociação, é preciso parar de atirar e tentar encontrar uma solução pacífica”, afirmou o presidente. “É preciso convencer o Putin e o Zelenski que o melhor negócio é acabar com a guerra e tentar saber em que condições vamos voltar à normalidade.”
Lula discutiu suas ideias com o papa Francisco, no Vaticano, mas indicou que o pontífice não necessariamente vai participar desta tentativa de formar um grupo de países. Lula afirmou que o chefe de Estado da Santa Sé e autoridade máxima da Igreja Católica tem “personalidade própria do ponto de vista jurídico, moral e político” para liderar individualmente conversas de lado a lado.
Tanto Kiev quanto Moscou mantém interlocução com o Vaticano. “O papa Francisco é hoje a mais importante autoridade política que existe no planeta Terra, não só pelo que representa, mas por sua postura”, afirmou Lula, em entrevista a jornalistas. “O papa tem mandado seus cardeais que estão discutindo com Zelenski e com Putin.”
Lula reiterou que o Brasil votou pela condenação da ocupação da Ucrânia pela Rússia em resoluções nas Nações Unidas. O país vem defendendo o cessar-fogo, que se choca com a proposta das potências ocidentais aliadas da Ucrânia. Os Estados Unidos e a União Europeia exigem, ao lado dos ucranianos, a retirada imediata das tropas russas.
Lula disse que considera um problema o fato de os Estados Unidos e a União Europeia estarem completamente envolvidos na guerra, o que prejudica sua capacidade negociadora. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
