Até 2040, ao menos 20,2 milhões de pessoas com HIV no mundo terão mais de 50 anos, o que vai representar mais da metade da população diagnosticada com o vírus. É o que mostra uma nova projeção feita em um relatório publicado há poucas semanas na revista científica The Lancet HIV.
Em 1996, a infecção se tornou controlável com a chegada da terapia antirretroviral altamente ativa (HAART), conhecida como “coquetel”, pois combinava três ou mais medicamentos contra o HIV — hoje, na maioria dos casos, é administrado um único comprimido diário.
Passados 30 anos, com o uso das terapias antirretrovirais e consequente aumento da expectativa de vida do paciente, o número daqueles que vivem com o HIV por anos também segue em crescimento.
Assim, envelhecer com o vírus já é uma realidade. Américo Nunes Neto, de 64 anos, convive com o HIV há 38 anos. Quando foi diagnosticado, em 1998, o resultado positivo era uma sentença de morte, segundo conta.
— A médica olhou para mim e disse: “Você tem só mais seis meses de vida” — relembra. — Hoje, sei que não sou o HIV. Sou uma pessoa com mais de 60 anos que vive com o HIV. Eu tiro o vírus do centro da minha identidade.
Mesmo tendo vivenciado a perda de seu parceiro há três anos, a vida é algo que Américo redescobre todos os dias, com curiosidade e animação. No seu tempo livre gosta de dançar e assistir a filmes.
Mas ele se considera privilegiado por ter tido acesso a informações e pessoas que o ajudaram logo no início do tratamento. Ativista dos direitos de pessoas com HIV e Aids, seu trabalho é, justamente, ajudar pessoas soropositivas na ONG Instituto Vida Nova.
— Para a maioria das pessoas com HIV de 50 anos ou mais, ainda existe pouco acesso à informação. Muitas vezes essa pessoa consegue tratamento pela saúde pública, mas não está inserida em ONGs ou grupos que possam ajudá-las de outras formas. Então, carecem de orientações práticas sobre o que fazer para envelhecer bem, como exercícios físicos, terapia e senso de comunidade — explica.
Necessidade de mudança
Atualmente, um dos grandes desafios se refere às pessoas com 50 anos ou mais que acabam de ser infectadas ou já convivem com o vírus sem saber. Estudos revelam que esse grupo apresenta um intervalo de tempo maior do que outras faixas etárias para chegar ao diagnóstico e, por isso, demora para iniciar o tratamento. Para aqueles que já desenvolveram a Aids, isso pode ser ainda mais negativo.
A infecção pelo HIV pode passar por diferentes fases, desde a infecção aguda até o estágio avançado, quando pode evoluir para Aids. Essa progressão, porém, não é inevitável: com tratamento antirretroviral adequado, a pessoa com HIV pode permanecer saudável e nunca desenvolver Aids. De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), no ano passado, 89% das pessoas diagnosticadas estavam recebendo terapia antirretroviral.
Esse cenário indica a necessidade da mudança do paradigma do cuidado, diz a comissão de pesquisadores de mais de 40 instituições que assinaram o documento publicado na Lancet. O primeiro passo é mudar como se pensa o tratamento.
Quando se leva em consideração a longevidade com qualidade de vida, e não apenas a sobrevivência do paciente, não se pode pensar só no tratamento medicamentoso antirretroviral, segundo as autoras principais do relatório, Amy Justice, da Universidade de Yale, e Keri Althoff, da Universidade John Hopkins.
Por isso, elas pedem que as instituições sigam além: com o monitoramento da idade fisiológica e declínio funcional, assim como minimização do uso de múltiplos medicamentos e a promoção da saúde mental e de um estilo de vida saudável.
As pesquisadoras defendem a mudança de abordagem diante do número crescente de pessoas convivendo com o vírus acima dos 50 anos. Segundo elas, hoje, esses pacientes não têm garantias de que viverão um envelhecimento saudável.
— Esse número está prestes a dobrar nos próximos anos, e 96% dessas pessoas estarão em países de média e baixa renda. Leva tempo para implementar as mudanças que estamos sugerindo. Isso envolve um processo de tentativa e erro; por isso, precisamos começar agora para garantir que eles tenham uma vida plena — defende Althoff.
Cenário brasileiro
Novos dados do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS, apresentados no mês passado na Conferência Internacional da Aids (AIDS 2026), mostram que o Brasil está entre os 21 países que tiveram um aumento de mais de 20% em novas infecções.
Sandra Wagner Cardoso, pesquisadora do Instituto Nacional de Infectologia da Fiocruz e coautora do artigo, pondera que, no caso brasileiro, ainda existem dificuldades no acesso ao tratamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS)— como de populações ribeirinhas.
— Aqueles com maior acesso aos cuidados oferecidos pelo SUS conseguem uma sobrevida maior. Então é preciso pensar nessas populações que vivem afastadas dos centros urbanos, e assim, dos centros de referência. Nesse aspecto, cabe mais organização e treinamento, talvez até descentralização do cuidado — opina a infectologista. Com informações do portal O Globo.
