Ícone do site Jornal O Sul

Mais da metade da população não sabe quanto paga em tributos embutidos nas compras, aponta pesquisa do Sindilojas Porto Alegre

Hands of female entrepreneur working with bills and documents

Os impostos podem estar presentes no preço de muitos produtos sem aparecer para o consumidor como um pagamento separado. Essa distância entre pagar e perceber quanto se paga aparece em uma pesquisa do Sindilojas Porto Alegre, divulgada exclusivamente para a Rede Pampa. Nela, consta que 51,8% dos entrevistados dizem saber que existem impostos embutidos no preço do que compram, mas não fazem ideia do valor, ou afirmam que nunca pararam para pensar sobre o assunto.

O dado reúne duas respostas distintas. Para 38,5% dos entrevistados, os impostos estão presentes, mas não há ideia de quanto representam. Outros 13,3% nunca haviam pensado na temática. Apenas 7,8% dizem saber bem quanto pagam. Mas, a maior parcela, ou seja, 40,5%, afirma ter somente uma noção aproximada. 

A pesquisa, porém, não conclui que a maioria acredita estar livre de impostos. Quando perguntados se haviam pago algum imposto nos 90 dias anteriores à entrevista, 83,3% responderam que sim. Outros 9% disseram que não, 1,5% não souberam responder e 6,3% escolheram uma opção separada: “Somente contas de casa”, como água e luz.

Neste sentido, o resultado aponta para uma diferença de entendimento sobre o que é o imposto que o consumidor reconhece e o tributo que, para ele, pode estar incorporado ao preço de uma compra. Essa última resposta, por exemplo, pode indicar que parte dos consumidores não associa determinadas despesas ao pagamento de tributos, mas o levantamento não perguntou o motivo de essas pessoas escolherem essa alternativa. Por isso, o dado não permite afirmar que elas considerem as contas de casa livres de impostos. Ele revela, sim, que a forma como as pessoas classificam o que pagam merece ser investigada.

Para o presidente do Sindilojas Porto Alegre, Arcione Piva, o principal destaque do levantamento é, justamente, a falta de conhecimento sobre os tributos pagos no dia a dia. “O que chama a atenção é o grande desconhecimento da população em geral do que se paga de tributos na hora em que se faz a compra de um produto, ou de um serviço. E a pesquisa mostra que mais da metade dos entrevistados não têm esse conhecimento”, afirmou.

Imposto na nota, mas fora do olhar

A informação aproximada sobre os tributos pagos aparece na nota fiscal, mas é pouco consultada. Metade dos entrevistados diz que nunca olha esse dado, embora saiba que ele está na nota. Outros 7% não sabiam que a informação aparecia ali. Só 10,8% afirmam que sempre a observam, sendo que 32,3% dizem que olham apenas às vezes.

Para Piva, a forma como os tributos são apresentados dificulta a percepção dos consumidores. “A maioria das pessoas acabam não olhando a nota fiscal, porque são números muito pequenininhos que estão ali. Eles se preocupam com o valor total e não com os tributos”, explicou.

O quadro sugere que a simples existência da informação não garante que ela seja percebida ou compreendida. No entanto, a pesquisa não avaliou se os consumidores entendem o cálculo apresentado na nota, se conseguem relacioná-lo a cada produto ou se consideram esse dado útil na hora de decidir uma compra. 

Consumidor percebe que o imposto pesa no preço

Ainda assim, a maior parte dos entrevistados identifica o consumidor como quem acaba arcando com o aumento de um imposto sobre um produto. Para 69,8%, o custo chega ao consumidor no preço final. Outros 27,3% acreditam que o aumento é dividido entre todos. Apenas 1,3% apontam o lojista como responsável por absorver o impacto em sua própria margem.

A resposta sugere que a relação entre impostos e preço é percebida de forma geral, embora o consumidor não saiba calcular quanto do preço representa tributo. Em outras palavras, a pesquisa registra uma percepção de que os impostos encarecem os produtos, ao mesmo tempo que mostra uma compreensão limitada do valor efetivamente pago.

Se os impostos fossem apresentados de forma clara e destacada em cada compra, 34% dizem que repensariam algumas compras, 27,8% passariam a comparar mais os preços e 26,3% cobrariam mais dos políticos sobre o destino do dinheiro. Já 23% afirmam que nada mudaria em seu comportamento. Como a pergunta mede o que os entrevistados dizem que fariam, ela não permite prever com certeza como agiriam diante de uma mudança real na forma de exibir os tributos.

Alimentos lideram a percepção de peso dos impostos

Na lista de itens em que acreditam que os impostos pesam mais no preço final, os entrevistados apontaram, principalmente, alimentos, citados por 70,8%. Combustíveis vêm em seguida, com 49,8%. Depois, aparecem energia elétrica e telefonia (31,8%), eletrônicos e celulares (29,3%) e medicamentos e produtos de higiene (28,3%).

Esses números medem a percepção dos participantes, não a carga tributária efetiva de cada categoria. A pesquisa não calculou os impostos incidentes sobre produtos específicos, nem verificou se a estimativa dos entrevistados corresponde à composição real dos preços. A diferença é importante: o resultado mostra onde as pessoas acreditam que o peso tributário é maior, e pode orientar uma investigação sobre a distância entre essa percepção e os dados de especialistas.

Poucos acompanham a Reforma Tributária

O desconhecimento também aparece quando o assunto é a Reforma Tributária. Questionados sobre as mudanças que substituem gradualmente tributos atuais pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), que assumirá o lugar do PIS e a Cofins a partir de 2027, e pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), de competência compartilhada entre estados e municípios que substituirá o ICMS e o ISS até 2033, 41,5% disseram nunca ter ouvido falar da reforma e 36,3% afirmaram que só conhecem o nome. Outros 18% já leram ou ouviram algumas informações, enquanto 4,3% dizem conhecer bem e acompanhar o tema.

Somadas, as duas respostas de menor conhecimento, isto é, “nunca ouviu falar” ou “só ouviu o nome”, chegam a 77,8%. O levantamento indica diferenças por escolaridade: 52% dos participantes com até ensino médio disseram nunca ter ouvido falar da reforma, ante 24,7% entre aqueles com curso superior incompleto ou completo e pós-graduação. Como se trata de cruzamento entre grupos menores, a diferença deve ser lida com cautela.

Na avaliação de Piva, a tendência de não tomar ciência com antecedência sobre novas regras contribui para explicar o baixo acompanhamento da reforma. “As pessoas acabam deixando para a última hora, de fato, para tomar conhecimento daquilo que realmente importa”, afirmou. O presidente também destaca que as mudanças devem alterar a maneira como os tributos aparecem para os consumidores. “O único benefício, neste caso, é a clareza, a transparência do imposto que o consumidor vai saber”, disse.

Um retrato de 400 entrevistas presenciais

A pesquisa foi realizada pelo Núcleo de Pesquisa do Sindilojas Porto Alegre em outubro de 2026, com 400 entrevistas presenciais em seis pontos: Centro, Azenha, Assis Brasil, Parque Marinha, Parque Germânia e Shopping Paseo. Segundo a nota metodológica, 346 entrevistados moravam em Porto Alegre e 54 em outro município da Região Metropolitana.

O material informa margem de erro de 4,9 pontos percentuais para o total da amostra, com nível de confiança de 95%. A nota metodológica recebida, no entanto, não detalha o processo de seleção dos entrevistados, nem informa se os resultados foram ponderados para refletir a composição demográfica da população. Até que esses pontos sejam esclarecidos, os percentuais devem ser apresentados como resultados das 400 entrevistas, sem generalizá-los automaticamente para todos os moradores de Porto Alegre.

A principal constatação é direta: reconhecer que impostos existem não significa saber quanto se paga. Mais da metade dos entrevistados não sabe estimar o valor dos tributos embutidos nas compras ou nunca parou para pensar nisso, e a informação aproximada da nota fiscal costuma passar despercebida. A pesquisa não calcula quanto imposto existe em cada produto, mas mostra que, para muitos consumidores, essa parcela do preço permanece pouco visível.

De acordo com Piva, prestar atenção às informações das notas fiscais e cobrar a destinação dos recursos públicos são atitudes importantes para ampliar a compreensão sobre os tributos. “Na verdade, é importante dizer para o consumidor que ele preste atenção nas suas notas fiscais quando ele compra um produto, o quanto ele está pagando de imposto e faça a cobrança aos políticos da aplicação correta desses recursos”, concluiu.

Sair da versão mobile