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Manifestações contra a prisão de Bolsonaro se limitaram às redes sociais, e foram bem menores do que se imaginava

Manifestantes em frente a sede da Polícia Federal em Brasília após a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro. (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)

Em 2017, os petistas acreditavam que o País seria tomado por uma onda de protestos caso as investigações da Operação Lava-Jato resultassem na condenação do então ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Com a sentença de 9 anos de cadeia e a prisão decretada, sindicalistas e alguns apoiadores chegaram a ensaiar um movimento de resistência, mas nada aconteceu além disso.

Oito anos depois, os bolsonaristas alimentavam a mesma expectativa em relação à prisão de Jair Bolsonaro. Vigílias estavam sendo convocadas desde o fim do julgamento no STF (Supremo Tribunal Federal) e havia rumores até de um protesto de caminhoneiros que poderia paralisar o País. Na manhã do último dia 22, o ex-presidente foi levado para a Superintendência da Polícia Federal em Brasília e teve a prisão preventiva convertida em definitiva dois dias depois. Chamadas a se manifestar, as ruas silenciaram.

Esquerda e direita até tentaram mobilizar suas respectivas militâncias. Os dois lados convocaram manifestações em uma das praças mais conhecidas do País, a Avenida Paulista. Ambas fracassaram, mas Jair Bolsonaro, sem dúvida, é o maior derrotado. Os esquerdistas convocaram a manifestação para comemorar a prisão do ex-presidente, levaram um boneco inflável de Bolsonaro caracterizado como presidiário e conseguiram atrair uns poucos pedestres que passavam com uma animada roda de samba. Os apoiadores do capitão também inflaram um boneco de Lula caracterizado como presidiário e pretendiam dar uma demonstração de força para pressionar o Congresso a pautar o projeto que concede anistia aos envolvidos no 8 de Janeiro, mas compareceram apenas uns poucos gatos pingados. Em Brasília, um grupo de cerca de quarenta apoiadores chegou a ensaiar uma concentração em frente à Superintendência da Polícia Federal, mas depois se dispersou.

O embate entre apoiadores e adversários do ex-presidente se restringiu ao universo digital, terreno em que a direita e os apoiadores do ex-presidente costumam ter supremacia – mas até isso foi aquém do que se esperava. Um levantamento realizado pelo Instituto Democracia em Xeque mostrou que a prisão do ex-presidente foi responsável por 3,3 milhões das postagens nas principais redes sociais e que os perfis de direita e esquerda dividiram os engajamentos, com uma ligeira vantagem para as publicações favoráveis a Bolsonaro. Segundo especialistas, esse equilíbrio foi alcançado depois que foram divulgadas as imagens da tentativa do ex-presidente de violar a tornozeleira eletrônica. As opiniões, por conta disso, se fragmentaram. “Depois do vídeo, a direita não conseguiu sustentar a narrativa de martírio do ex-presidente, enquanto a esquerda conseguiu neutralizar a versão de que a prisão teria sido motivada por perseguição política e religiosa”, diz o pesquisador

Alexsander Chiodi, coordenador do estudo, que contabilizou 11,9 milhões de interações atreladas à polêmica da tornozeleira. Segundo análises dos especialistas, o vídeo silenciou setores institucionais e moderados do bolsonarismo, como é o caso do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.

“Isso também diminuiu o ímpeto dos apoiadores mais fiéis, divididos entre enfatizar a fragilidade física e psíquica do ex-presidente e minimizar a violação da tornozeleira”, avalia Beto Vasques, diretor do Instituto Democracia em Xeque.

Responsável pelo monitoramento de mais de 100 mil grupos de WhatsApp e Telegram, a empresa de tecnologia Palver também chegou a um diagnóstico semelhante. No dia da prisão, o volume de mensagens favoráveis ao ex-presidente nos aplicativos era duas vezes maior do que as contrárias. A divulgação do vídeo inverteu a situação – e isso certamente influenciou o humor da militância bolsonarista. “Mobilizar as ruas exige articulação, preparo e coesão. Ficou evidente o desânimo de uma parcela do eleitorado com o que aconteceu”, diz o professor Luis Fakhouri, dono da Palver.

Para o mestre em ciências políticas da Unesp Alberto Aggio, as manifestações em defesa do ex-presidente começaram a perder vigor depois do primeiro decreto de prisão, em agosto passado, e com a percepção de que o Judiciário não recuaria e o Congresso dificilmente aprovaria um projeto de anistia. “Há uma certa desorientação da base aliada do ex-presidente. Não é por acaso que as manifestações em defesa dele têm se limitado às redes sociais”, destaca o professor. Ao vencer as eleições em 2018, Jair Bolsonaro mostrou que sua popularidade no universo digital encontrava correspondência no mundo real. A mesma situação pode ser observada nas manifestações que antecederam seu julgamento. No primeiro teste após a prisão, porém, muito dessa equivalência entre o real e o virtual se esvaiu após a condenação. As informações são da revista Veja.

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