Mário Quintana estaria completando hoje 120 anos. Aliás, acho até que está. Uma figura como ele não desaparece. Anda pelas ruas da cidade, contempla os plátanos da Praça da Alfândega, observa, escondido, os eventos da Casa de Cultura que leva seu nome ou “voeja” — expressão tão sua — entre as nuvens e as estrelas, olhando, do seu jeito próprio, o nascer e o pôr do sol, o embalo das ondas do mar e o amar sem dimensão, sempre com aquele sorriso maroto, como a dizer: “Ora bolas”, título de um de seus inúmeros livros.
Tamanha era sua simplicidade e tão singular a forma como via a vida que, depois de muito relutar, aceitou receber uma homenagem em sua cidade natal, Alegrete. Está representado por uma estátua na Praça Getúlio Vargas. No pedestal, fez constar a frase: “Um engano em bronze é um engano eterno”.
Não me atrevo a escrever um necrológio; um poeta certamente o receberia como uma afronta. Além disso, 120 anos de leveza, traduzidos em palavras que se transformam em prosa e verso, são “Esconderijos do Tempo” — outro de seus livros — que embalam e cativam leitores, pouco importa a idade.
Mário está entre nós: livre, solto, inalcançável. Apartidário, respirava apenas o bem comum. Costumava dizer: “Sou daquelas pessoas que pensam em diversas coisas sobre o mesmo assunto, ao mesmo tempo e em tempos diferentes. Sou todas elas”.
Também lhe atribuem, em um tempo político tão acirradamente polarizado como o de hoje, o célebre verso: “Eles passarão, eu passarinho…”. É realmente dele? Quem vai saber. Coberto de razão ou não, uma coisa é certa: Mário certamente “passaria”.
Eduardo Battaglia Krause
Advogado e escritor
