A Copa do Mundo de 2026 já era a Copa dos pênaltis perdidos antes mesmo de Kylian Mbappé caminhar para a marca contra Marrocos, na quinta-feira, pelas quartas de final. Depois de uma longa espera, com checagem e reorganização da cobrança, o francês bateu mal, fraco, à meia altura, e parou em Bounou.
O erro do camisa 10 da França entrou para uma lista que já tinha nomes como Lionel Messi e Bruno Guimarães e levou o Mundial ao pior aproveitamento em pênaltis desde que há registros detalhados da Opta, a partir de 1966. Antes da cobrança de Mbappé, 20 dos 59 pênaltis da Copa — somando tempo normal, prorrogação e disputas por pênaltis — haviam sido desperdiçados, aproveitamento de 66,1%. Com o erro do francês, a conta vai a 21 desperdícios em 60 batidas: só 65% de conversão.
O recorte das cobranças com a bola rolando também impressiona. Com o erro de Mbappé são 20 cobranças, com 14 gols e seis erros, aproveitamento baixo de 70% A média histórica em Copas, nesse tipo de cobrança, é de 79,1%, segundo a Opta, que mede os dados de todos os Mundiais desde 1966, já contando os números deste ano.
A queda é puxada por alguns dos nomes mais importantes da competição. Messi já perdeu dois pênaltis nesta Copa, contra Áustria e Egito, e se tornou o primeiro jogador a desperdiçar mais de uma cobrança com a bola rolando em uma mesma edição de Mundial, sem contar disputas por pênaltis. No total histórico de Copas, o argentino soma quatro erros em oito tentativas e tem apenas 50% de aproveitamento. Bruno Guimarães, por sua vez, perdeu contra a Noruega, nas oitavas, em lance que acabou pesando na eliminação brasileira. Mbappé vinha de gol de pênalti decisivo contra o Paraguai, mas agora também entrou para a lista dos astros que falharam da marca da cal.
Quando entram na conta as decisões por pênaltis, o cenário fica ainda mais pesado. Até as quartas, a Copa já teve quatro disputas, com 40 cobranças, 25 gols e 15 erros: aproveitamento de 62,5%. Alemanha x Paraguai teve cinco desperdícios em 12 batidas; Holanda x Marrocos, cinco em dez; Austrália x Egito, dois em oito; e Suíça x Colômbia, três em dez. A média histórica das disputas por pênaltis em Copas é de 69,4%, também segundo a Opta.
A Copa 2026, no quesito pênaltis, portanto, reúne duas crises numa só: a dos especialistas, que têm errado em tempo normal ou prorrogação, e a dos batedores improvisados das disputas, especialmente defensores. A Opta aponta que zagueiros converteram apenas cinco de 11 cobranças nas disputas deste Mundial, aproveitamento de 45,4%, o pior entre as posições.
Entre os erros estão nomes como Manuel Akanji, Davinson Sánchez, Jonathan Tah, Fabián Balbuena, Lucas Herrington e Harry Souttar, num retrato de como as listas de cobradores têm chegado cedo demais a jogadores menos acostumados à função.
O dado chama ainda mais atenção porque as Copas recentes já vinham numa curva de queda. Segundo a Opta, o aproveitamento geral em pênaltis caiu a cada Mundial desde 2014, e a edição de 2026 aprofunda essa tendência. O avanço dos estudos de goleiros, a pressão das disputas, a demora em checagens do VAR e o peso emocional de uma competição maior e mais longa ajudam a explicar por que uma cobrança que costuma ser tratada como obrigação virou uma das armadilhas do torneio.
Em uma Copa de Messi, Mbappé, Haaland e Kane brigando por recordes de gols, a marca da cal virou também o lugar em que os maiores têm mostrado que ainda podem parecer humanos. As informações são do jornal O Globo.
