O médico indicado pelo novo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, para coordenar um núcleo que definirá protocolos de tratamento à covid-19 é um crítico do uso de medicamentos sem eficácia no combate à doença, como a cloroquina, defendida pelo presidente Jair Bolsonaro. O pneumologista Carlos Carvalho, professor da Universidade de São Paulo (USP), também defende o isolamento social e o uso de máscaras.
Na quarta-feira (24), Queiroga anunciou uma secretaria dentro do ministério para tratar exclusivamente do combate à covid-19. Dentro dessa secretária, haverá um “núcleo técnico”, comandado por Carlos Carvalho, para definir “protocolos assistenciais”. Esse grupo vai dar orientações, por exemplo, sobre o momento em que pacientes devem ser internados e quando devem receber reposição de oxigênio.
“Nós estamos agora, com o firme propósito, e essa é uma providência do momento, de instituir uma secretaria especial para o combate à pandemia da covid-19. Essa secretaria vai cuidar somente da pandemia”, disse Queiroga. “Nós constituímos, dentro da secretaria especial de combate à pandemia, um núcleo técnico, que vai ser coordenado pelo professor Carlos Carvalho, professor titular da Universidade de São Paulo, que vai coordenar os protocolos assistenciais.”
O ministro falou sobre o núcleo justamente ao ser questionado se o ministério iria rever a sua posição sobre a cloroquina. Queiroga respondeu que “não existe nenhum protocolo clínico e diretriz terapêutica no ministério ratificando uso de medicação”. No ano passado, a pasta divulgou protocolo autorizando o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina em pacientes em todos os estágios da doença.
Carlos Carvalho atuou como coordenador do Centro de Contingência contra a Covid-19 do Estado de São Paulo. Ano passado, Carvalho afirmou que não existe “tratamento milagroso” para a covid-19 e nem um remédio que previna a doença. A única forma de prevenção, segundo o médico, é o isolamento e o uso de máscaras — duas práticas criticadas diversas vezes por Bolsonaro.
“É importante dizer que não tem tratamento milagroso. A medicina não tem um tratamento que mude o curso da doença. Não há remédio que previna. A certeza que temos é o isolamento, o afastamento das pessoas e a barreira mecânica criada com o uso da máscara. É isso que realmente previne. Nos casos mais graves, aprendemos que alguns tratamentos podem ser úteis”, disse Carvalho, em julho do ano passado.
Carvalho ajudou no tratamento do cardiologista Roberto Kalil Filho, quando ele contraiu o coronavírus, no ano passado. Na época, disse que Kalil tomou cloroquina contra a sua orientação e que não era possível saber se foi o medicamento que ajudou na recuperação do colega.
“Não há como dizer que foi a cloroquina que ajudou o Kalil. Ele tomou outros remédios além dela. Eu mesmo tive coronavírus, tomei Novalgina e outros remédios e estou curado. Vou dizer que a Novalgina cura coronavírus?”, afirmou o pneumologista, em abril.
Em entrevista publicada na terça-feira (23) pela “BBC News”, antes do anúncio de Queiroga, Carvalho afirmou que “informações desconexas sobre medicação sem eficácia contribuíram para a letalidade maior na nossa população”.
