A posse de telefone celular no Brasil continuou avançando de maneira generalizada entre a população brasileira em 2025, mas houve uma exceção: as crianças de 10 a 13 anos foram o único grupo etário a registrar queda no indicador, segundo dados divulgados nessa quinta-feira (2) pelo IBGE.
As informações são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua: Acesso à Internet e à televisão e posse de telefone móvel celular para uso pessoal (Pnad TIC 2025).
Entre 2024 e 2025, a parcela de crianças nessa faixa etária que possuíam celular para uso pessoal caiu de 56,7% para 55,2%. Com isso, esse grupo continuou sendo o que apresenta a menor proporção de pessoas com aparelho entre todas as faixas etárias.
“A gente vê cada vez mais uma discussão, uma preocupação com a segurança das crianças e com a exposição delas, por exemplo, às redes sociais. Isso pode estar relacionado a essa estagnação. A gente viu, a partir de 2025, uma restrição ao uso de celulares nas escolas. Desde o ano passado já vem tendo uma discussão intensa sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente Digital, o ECA Digital, que esse ano entrou em vigor. Então, isso tudo pode estar influenciando”, avalia o analista do IBGE Gustavo Fontes.
Essa preocupação está presente na família de Ivo Coser, de 63 anos. Professor da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), ele e a esposa decidiram não dar um celular à filha caçula, Laura, de 11 anos.
“Eu e minha esposa entendemos que nossa filha precisa acumular experiências antes de ter contato com o mundo exterior dessa forma, sem filtros. E isso, inclusive, pode representar uma ameaça”, afirma.
No início, Laura questionou a decisão dos pais após ingressar em uma escola maior, onde passou a conviver com mais colegas que já tinham celular. Com o tempo, porém, deixou de insistir. Hoje, ela pode utilizar um tablet com controle parental por uma hora por dia, além de ter algumas flexibilizações nos finais de semana.
O plano do casal é dar um celular a Laura apenas quando ela completar 16 anos. Na avaliação deles, essa é uma idade em que ela estará mais preparada e madura para lidar com a internet e com as interações que extrapolam o ambiente familiar e escolar.
Para preencher o tempo longe das telas, os pais investiram em outras atividades. Laura faz aulas de teatro e tênis e também foi incentivada a desenvolver o hábito da leitura. Coser conta que tanto ele quanto a esposa cresceram em lares onde os livros faziam parte da rotina e buscaram transmitir esse costume aos filhos. Atualmente, a pré-adolescente é fã de mangás, as histórias em quadrinhos de origem japonesa.
Além da posse de celular, caiu também o uso de internet por esta faixa etária. Este grupo também foi o único a ter queda no acesso à rede, passando de 84,9% em 2024 para 84,4% em 2025.
Luca Belli, coordenador do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV, acredita que, embora seja possível enxergar um movimento de conscientização dos pais em relação aos perigos do uso de celulares por crianças, acompanhado por um avanço das discussões no campo legislativo, esse processo ainda está em estágio muito inicial no Brasil.
“É muito positivo que haja essa diminuição, e entendo que sim, tem uma conexão direta com a legislação, e também com a tomada de consciência dos riscos que existem, porém, eu acho esse fenômeno ainda muito incipiente, e acho que deveria ter uma política pública muito mais assertiva sobre a conscientização dos riscos”, aponta.
Ele lembra que o ambiente digital pode trazer impactos à saúde mental, à capacidade de socialização e aumentar a exposição de jovens a criminosos, golpes, fraudes, predadores sexuais e até interações potencialmente nocivas com chatbots. Por isso, na sua avaliação, é importante que pais e responsáveis acompanhem o uso da tecnologia por crianças e adolescentes e imponham limites ao tempo de exposição às telas.
O especialista menciona outros países, que já possuem propostas mais avançadas de restrição de crianças e adolescentes a serviços digitais. Um exemplo é a Austrália, primeiro país a aprovar uma lei proibindo menores de 16 anos de terem contas em grandes redes sociais, assim como a Indonésia, que também já conta com regras semelhantes.
No Reino Unido, a proibição do acesso de menores de 16 anos às redes sociais já tem implementação prevista para 2027, a depender da aprovação das medidas necessárias.
“Eu acho que daqui a 10 anos vamos olhar para trás da mesma forma como, hoje em dia, olhamos para a década dos anos 70, no qual cigarros eram promovidos e crianças e adolescentes podiam fumar. Hoje em dia é algo bastante absurdo de se pensar que algo assim pudesse acontecer”, disse o especialista, que acredita que a tendência é ver essa discussão se ampliando no Brasil, acompanhada da aprovação de regras mais rígidas.
Na direção oposta, os idosos foram os que mais ampliaram a posse de celular no último ano. Entre as pessoas com 60 anos ou mais, o percentual de proprietários do aparelho aumentou 2 pontos percentuais, o maior crescimento entre os grupos analisados, saindo de 78,3% em 2024 para 80,3% em 2025.
No total, em 2025, 167,4 milhões de pessoas de 10 anos ou mais de idade tinham telefone móvel celular para uso pessoal no país, o que correspondia a 89,8% da população, segundo o IBGE. As informações são do jornal O Globo.
