O presidente Michel Temer seguiu reunido com ministros para avaliar a situação da paralisação dos caminhoneiros em todo o País, após publicação das MPs (Medidas Provisórias) na noite de domingo, atendendo também às reivindicações dos caminhoneiros autônomos. Segundo fontes, as primeiras avaliações do governo foram de que ainda não deu tempo de todos os caminhoneiros tomarem conhecimento das decisões do governo e por isso não deram início à desmobilização nas estradas.
Entre os ministros participantes estão Eliseu Padilha (Casa Civil), Sérgio Etchegoyen (Gabinete de Segurança Institucional), Raul Jungmann (Segurança Pública), Carlos Marun (Secretaria de Governo), Grace Mendonça (Advocacia-Geral da União), Valter Casimiro (Transportes), Rossielli Soares (Educação), Gilberto Occhi (Saúde) e o ministro interino Eumar Novacki (Agricultura).
Mas a situação ainda é crítica e setores do Planalto reconhecem isso. O Alto Comando das Forças Armadas também está fazendo reuniões de avaliação. Há uma grande preocupação também com a ameaça de greve agora dos petroleiros. Mas o governo quer deixar essa discussão para um segundo momento.
Produtos estragam nas estradas
Enquanto a situação não é normalizada um quadro se repete por todo o País. Produtos estragam nos caminhões. Dentro do baú de um caminhão parado há uma semana na Rodovia Presidente Dutra, no acesso a Santa Isabel (a 60 km de São Paulo), apodrecem couve e alface. Tomates-cereja começam a soltar uma água amarelada e alguns estão cobertos por fungos brancos com manchas pretas. Pinhão e abóbora ainda resistiam.
O motorista do caminhão, que não quis se identificar, contou apenas que saiu da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo na segunda-feira passada (21) para entregar verduras e legumes em São José dos Campos. Parou 40 quilômetros antes de chegar lá. Como o caminhão não é frigorífico, os alimentos estão apodrecendo. Parte das mercadorias foi retirada antes, para os manifestantes se alimentarem.
O caminhoneiro Wagner Souza Melo, de 46 anos, também já distribuiu parte dos alimentos que transportava. Na quarta-feira, ele tirou 40 quilos de frango do caminhão para os manifestantes comerem. Ainda sobraram pouco mais de 2,9 mil quilos. Diz que os produtos ainda não estragaram. Três vezes por dia, ele deixa o caminhão ligado por cerca de 40 minutos para manter os frangos congelados. A temperatura interna se mantém, assim, ao redor dos dez graus negativos – o normal seria -18ºC. “Enquanto tiver em temperatura negativa, não estraga.”
Melo afirma ainda que, na última semana, não gastou nem meio tanque de combustível para manter a temperatura do baú – “com o caminhão parado, gasta muito pouco” – e destaca estar sem pressa para sair dali: “Olha minha cara de preocupado. Tenho carne aqui (para comer). Não acho ruim ficar parado se for para melhorar o Brasil”. O caminhão de Melo foi comprado em 2015 por cerca de R$ 120 mil. Ele paga parcelas mensais de R$ 3,5 mil pelo veículo e conta que, nas últimas duas semanas em que trabalhou, gastou R$ 2,9 mil com diesel, enquanto faturou R$ 6,9 mil. “Sobra muito pouco para dar uma vida digna à família.”
