O Brasil é o recordista de cesáreas no mundo. Para reverter esse quadro, o Ministério da Saúde está fazendo treinamentos com médicos e enfermeiros para melhorar a atenção à gestante e diminuir os nascimentos com cirurgias desnecessárias no País. Hoje, 84% dos partos realizados em instituições de saúde privadas são cesáreas. O índice cai para 40% no Sistema Único de Saúde. O recomendado pelo governo brasileiro é até 35%, enquanto a Organização Mundial de Saúde defende que essa parcela fique entre 15% e 25%. Em 2013, no Rio Grande do Sul, entre os cerca de 130 mil partos realizados, 62% foram pelo método da cirurgia eletiva.
Uma pesquisa feita pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) acompanhou 437 mães que deram à luz no Rio de Janeiro (RJ), em 2014, na saúde suplementar. No início do prénatal, 70% delas não tinham a cesárea como preferência. Mas 90% acabaram tendo seus filhos e filhas assim – em 92% dos casos, a cirurgia foi realizada antes de a mulher entrar em trabalho de parto. O levantamento dá a medida de que, em algum estágio dos nove meses de gestação, algo fez a mulher mudar de ideia.
As pesquisas da Fiocruz mostram a “baixa informação recebida pelas mulheres em relação às vantagens e desvantagens dos diferentes tipos de parto e a baixa participação do médico como fonte desta informação”. Poucas mães e futuras mães sabem, por exemplo, que as cesáreas aumentam o risco de um bebê nascer prematuro (com menos de 37 semanas de gestação).
Isso porque muitos partos são marcados para essa idade gestacional e, como há possibilidade de erro de até uma semana, o bebê pode ser ainda mais novo. A esmagadora maioria destas intervenções não é feita de forma emergencial, mas, sim de forma programada.
Hospitais
O treinamento envolve ao todo 40 hospitais no projeto Parto Adequado, que conta com apoio do Ministério da Saúde e parceria do IHI (Institute for Healthcare Improvement.) “Essas instituições vão fazer parte de um projeto que, sem dúvida, vai contribuir para mudar o modelo de atenção ao parto e nascimento, qualificando a assistência e garantindo mais saúde para mães e bebês”, diz a diretora-presidente substituta da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar), Martha Oliveira. O diretor do Hospital Albert Einstein, de São Paulo (SP), Miguel Cendoroglo, reforçou a importância da participação das instituições. “Acredito que seremos capazes de transformar o cenário atual e proporcionar ainda mais saúde para a população do País”, afirma o dirigente.
Manuais
Os hospitais participarão de sessões de aprendizagem e treinamentos práticos. Ao longo dos trabalhos, os participantes colaborarão para o desenvolvimento de três modelos assistenciais a serem customizados, testados e aperfeiçoados em conjunto com o Hospital Albert Einstein, o IHI e a ANS.
Está prevista a criação de manuais contendo a metodologia desenvolvida e as recomendações obtidas com os resultados, de modo a contribuir para gradativamente transformar a atenção a parto e nascimento no Brasil.
Riscos
Quando não há indicação clínica, a cesariana ocasiona riscos desnecessários à saúde da mulher e do bebê: aumenta em 120 vezes a probabilidade de problemas respiratórios para o recém-nascido e triplica o risco de morte da mãe. Cerca de 25% dos óbitos neonatais e 16% dos infantis no Brasil estão relacionados à prematuridade. Para enfrentar essa situação, a ANS está propondo uma série de medidas, que se somam às iniciativas implementadas desde 2005. Além do projeto-piloto que está em andamento, em julho entrará em vigor a Resolução Normativa n 368, com medidas que garantem o acesso de beneficiárias de planos de saúde aos percentuais de cirurgias cesáreas (por operadora, hospital e médico) e a utilização do partograma e cartão da gestante.
