O chanceler brasileiro, Mauro Vieira, afirmou que a Argentina precisa cessar imediatamente o que chamou de agressões dirigidas ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva para que a relação bilateral volte à normalidade. A declaração foi dada em entrevista ao jornal argentino Clarín publicada neste domingo (9), enquanto Vieira está em Cali, Colômbia, participando da posse do presidente Abelardo de la Espriella em nome do presidente Lula.
No diálogo, o ministro das Relações Exteriores tratou da crise tarifária com os Estados Unidos e, especialmente, do desgaste na relação bilateral com a Argentina provocado pelos discursos do presidente Javier Milei contra Lula.
“É necessário um gesto: o de parar as agressões”, disse Vieira, que foi embaixador do Brasil em Buenos Aires entre 2004 e 2010.
Segundo o chanceler, o vínculo entre os dois países está hoje deteriorado a ponto de ser administrado apenas por encarregados de negócios, nível hierárquico abaixo do de embaixador, em razão de ataques reiterados de Javier Milei não só a pessoas, mas às instituições brasileiras e ao Supremo Tribunal Federal, que teve papel central em barrar uma tentativa de golpe militar e punir os responsáveis.
Vieira classificou como “algo assombroso” o discurso do presidente argentino na convenção do Partido Liberal e disse que episódios semelhantes se repetiram “várias vezes em menos de uma semana”. Ele afirmou que deseja ver os embaixadores de ambos os países retornarem a seus postos assim que o cenário atual for revertido.
O chanceler também rejeitou as acusações do presidente argentino, Javier Milei, de que o Brasil estaria participando de uma campanha internacional contra o governo argentino. O ministro rejeitou como “totalmente falsa” a acusação de Milei de que o governo brasileiro teria financiado uma campanha internacional contra a Argentina, incluindo insinuações sobre a visita do ex-ministro Sergio Massa ao Brasil — feita, segundo Vieira, em razão de assuntos de interesse comum entre as pastas econômicas dos dois países, sem qualquer conotação eleitoral.
O chanceler reagiu às críticas de Milei e de dirigentes do governo argentino, que classificam Lula como “comunista”. Vieira chamou essa caracterização de “surpreendente” e disse que o presidente brasileiro “jamais negou” nem buscou alterar o caráter capitalista da economia do país. Para ele, as acusações refletem “a visão do presidente argentino” e não a realidade da política econômica brasileira.
Apesar do desgaste diplomático, o chanceler reafirmou que a relação com a Argentina “é muito importante” e que o Brasil continua considerando o país vizinho um parceiro estratégico, citando a relevância comercial do vínculo bilateral.
“A Argentina deve valorizar sua relação com o Brasil da mesma forma que o Brasil valoriza a sua com a Argentina. Precisamos ser muito claros quanto a isso, pelo bem dessa relação: esse tipo de agressão deve cessar imediatamente para que possamos trabalhar no vínculo bilateral, que é tão importante. Para o governo brasileiro, a relação entre os dois países é primordial, extremamente importante, e precisamos saber se o atual governo argentino compartilha dessa visão em relação ao Brasil”, declarou o ministro ao jornal Clarín.
A tensão entre Brasília e Buenos Aires se aprofundou nas últimas semanas, com trocas de farpas entre Milei e Lula e entre integrantes dos dois governos, num contexto em que as embaixadas de ambos os países já operam sem chefes de missão plenos. (Com informações do portal g1)
