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Mocinho ou vilão? Veja prós e contras do uso de celular e como ele afeta a saúde dos idosos

Segundo o IBGE, 80,3% dos brasileiros idosos tinham um aparelho para uso pessoal em 2025, 18,3% a mais do que no ano anterior. (Foto: Freepik)

Com a presença do celular no dia a dia, os idosos conseguem se comunicar com mais facilidade com parentes e amigos, além de ter acesso a serviços, informações e entretenimento. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 80,3% dos brasileiros idosos tinham um aparelho para uso pessoal em 2025, 18,3% a mais do que no ano anterior. Mas, além dos benefícios, o uso frequente e os movimentos repetitivos das mãos, como digitar, deslizar a tela e segurar o celular por períodos prolongados, podem favorecer o surgimento ou agravamento de lesões. Embora o uso não seja o único responsável pelas dores, o desconforto também pode ser sentido em outras áreas do corpo como o punho e até no pescoço.

Segundo o presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia da Mão (SBCM), Roberto Luiz Sobania, os esforços dos idosos ao usar o celular merecem mais atenção do que nos jovens.

“As pessoas idosas já gastaram mais as articulações e perderam um pouco de massa muscular. Sendo assim, o uso excessivo do celular tem uma chance maior de causar dor, desconforto e de fazer com que eles tenham que fazer pausas mais frequentes”, explica o especialista.

O problema pode ser ainda maior em quem já apresenta artrose, principalmente nas articulações próximas às pontas dos dedos e no polegar. O ato de segurar o celular com os dois polegares pode aumentar o desconforto e dores nessas regiões. O pescoço também é uma das outras áreas que podem ser afetadas com o uso contínuo do aparelho, podendo ficar sobrecarregado se o idoso ficar com a cabeça inclinada para olhar a tela. Os braços e as mãos também fazem esforço ao segurar o aparelho por muito tempo.

Apesar disso, Sobania reforça que os idosos não precisam abandonar a tecnologia e explica que algumas medidas podem auxiliar na redução da sobrecarga das mãos.

“A recomendação é adaptar a maneira com que usa o aparelho e respeitar os sinais do corpo. O idoso pode fazer algumas pausas durante o uso, alternar as atividades e substituir a digitação por gravação de mensagens de áudio e digitação por voz”, explica o presidente da SBCM.

Outra indicação do ortopedista é mudar a forma de digitar: em vez de segurar o aparelho com as duas mãos e utilizar os dois polegares, o idoso pode segurar apenas com uma e usar o dedo indicador da outra mão para tocar na tela. E, durante atividades mais longas, a orientação é, sempre que possível, optar pelo computador, pois a tela maior permite uma posição mais adequada, com os pés apoiados no chão, coluna apoiada e antebraços sobre a mesa.

Atenção redobrada

Sentir dor após uso prolongado e repetição dos movimentos pode melhorar com descanso e redução do tempo diante do celular. Entretanto, se o desconforto persistir ou começar a atrapalhar atividades simples do dia a dia do idoso, como segurar outros objetos, girar chaves ou abrir potes e garrafas, é necessário procurar uma avaliação médica. E se já existir deformidades nos dedos ou sinais que podem indicar alterações articulares anteriores e maior possibilidade de agravamento, a atenção deve ser ainda maior.

Outra medida, além de alterar o jeito de segurar o celular e reduzir o uso do aparelho, é a realização de exercícios na rotina. O alongamento das mãos e dos punhos além dos movimentos de fortalecimento podem ajudar a preservar a musculatura e proteger as articulações.

“A tecnologia deve facilitar a vida e não se transformar em fonte de dor”, conclui.

Apesar das dores e desconfortos, os idosos que usam celulares parecem levar mais vantagem quando o assunto é saúde do cérebro. Estudos realizados por pesquisadores da Universidade do Texas e da Universidade Baylor, ambas nos Estados Unidos, indicam taxas mais baixas de declínio cognitivo em idosos que utilizam celulares, tablets e outros dispositivos digitais no dia a dia.

Os resultados indicam que os usuários das tecnologias digitais apresentam 58% menos chances de desenvolver declínio cognitivo e uma taxa 26% menor de perda das funções cognitivas ao longo do tempo.

Com a análise que foi feita em 57 estudos já publicados, que examinaram o uso da tecnologia e as habilidades mentais em 411.430 adultos mais velhos ao redor do mundo, com média de idade de 69 anos, os pesquisadores descobriram que pessoas com mais de 50 anos que utilizavam dispositivos digitais apresentam menor risco de comprometimento cognitivo. Os detalhes foram publicados na revista Nature Human Behaviour.

“Acreditamos que os três Cs podem ser importantes: complexidade, conexão e comportamentos compensatórios. As ferramentas podem ajudar as pessoas a se envolverem em atividades complexas e a fortalecerem suas conexões sociais, o que parece ser benéfico para o cérebro em processo de envelhecimento”, diz Jared Benge, neuropsicólogo clínico do Centro de Memória Abrangente da UT Health Austin, ao jornal The Guardian.

No artigo, os autores ainda sugeriram que os prós e os contras dos smartphones e outros dispositivos para o cérebro em processo de envelhecimento dependem de como são utilizados.

“Usar dispositivos digitais da mesma forma que usamos televisões – passivamente e de forma sedentária, tanto física quanto mentalmente – provavelmente não será benéfico. Mas nossos computadores e smartphones também podem ser mentalmente estimulantes, proporcionar conexões sociais e compensar as habilidades cognitivas que declinam com a idade. Esses últimos tipos de uso são considerados benéficos para o envelhecimento cognitivo há muito tempo”, afirmou o coautor do estudo, Michael Scullin, neurocientista cognitivo da Universidade Baylor, no Texas.

Não está claro no estudo, porém, se o uso de tecnologias contribui para evitar o declínio mental ou se as pessoas com melhores habilidade tendem a usar mais esses dispositivos. No entanto, os cientistas afirmam que as descobertas questionam a alegação de que o tempo gasto em frente às telas causa a “demência digital”. As informações são do jornal Extra.

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