Morreu na madrugada deste domingo (19), em Belo Horizonte (MG), Murillo Mendes, 93 anos, presidente da empreiteira Mendes Júnior. Segundo o advogado Marcelo Leonardo, o empresário sofreu um infarto. A construtora Mendes Júnior foi fundada em 1953 por José Mendes Júnior, pai de Murillo, e entrou em recuperação judicial depois de ter sido uma das empreiteiras acusadas na Operação Lava-Jato de formação de cartel para obtenção de contratos com a Petrobras.
Declarada inidônea, a construtora não pode tocar obras públicas e foi afastada, por exemplo, da transposição do Rio São Francisco, onde tinha contrato com o governo federal para construir as estruturas do eixo Norte.
Murillo Mendes era tio de Sérgio Cunha Mendes, ex-vice-presidente da empreiteira. No último dia 13, o juiz Sérgio Moro determinou a execução da pena do empresário, que foi condenado na Lava-Jato a 27 anos e dois meses de prisão. Além dele, outros dois executivos da empresa iniciaram a execução antecipada da pena – Rogério Cunha Pereira, condenado a 18 anos e nove meses; e Alberto Elísio Vilaça Gomes a 11 anos e seis meses.
A cúpula da empresa foi condenada por corrupção, lavagem de dinheiro e associação criminosa pelo pagamento de R$ 31,4 milhões em propina por meio do doleiro Alberto Youssef. As dívidas da empreiteira somam R$ 360 milhões. Apenas a dívida com os cerca de 1.700 funcionários somava R$ 20 milhões. A Mendes Júnior informa que tem R$ 303 milhões a receber por obras prestadas aos governos de São Paulo, Ceará e Mato Grosso.
Murillo foi enterrado em uma cerimônia reservada aos parentes na capital mineira. O advogado lamentou a morte dele e disse que é uma grande perda para Minas Gerais. Ele sucedeu o pai, José Mendes Júnior. Entre as obras importantes que a construtora participou está a Hidrelétrica de Furnas, em 1957, a ponte Rio-Niterói, em 1971, a Hidrelétrica de Itaipu, 1973, além de construções no exterior.
Batalha jurídica contra a União
Murillo Mendes protagonizou uma verdadeira batalha jurídica contra a União, ao cobrar indenização bilionária, no fim dos anos 1990, pelo suposto atraso de pagamentos referentes a obras contratadas pela Companhia Hidrelétrica do São Francisco.
Antes disso, a companhia já havia também recorrido aos tribunais contra o Banco do Brasil em razão de prejuízos que a empresa sofreu na execução de obras no Iraque, cujos pagamentos foram afetados depois da Guerra do Golfo. Mendes cobrava quase US$ 1 bilhão sob o argumento de que obrigações contratuais não foram cumpridas e que o Banco do Brasil havia “arruínado o crédito da companhia”. Cerca de US$ 420 milhões se referiam a dívidas do governo iraquiano com a construtora assumidas pelo Banco do Brasil.
Plano de recuperação judicial
Em 2016, a empreiteira apresentou ao TJ-MG (Tribunal de Justiça de Minas Gerais) um plano de recuperação judicial da empresa. O plano faz parte do processo de recuperação judicial da empresa. Na ocasião, o Fórum Lafayette informou que o valor a ser recuperado era de R$ 258 milhões, que corresponde ao montante da dívida, segundo a própria empresa.
No mesmo ano, a CGU (Controladoria-Geral da União) havia declarado a construtora inidônea. Com isso, ela ficou impedida de fazer contratos com qualquer instituição pública. Foi a primeira decisão desse tipo em relação a empresas envolvidas na Lava-Jato.
O órgão colheu provas de irregularidades na atuação da construtora Mendes Júnior em contratos da Petrobras de 2004 a 2012. Na investigação, a empresa até admitiu o suborno, mas alegou que a propina foi extorquida por operadores do esquema. Porém, isso não convenceu a CGU.
