Aguardando o elevador no quinto andar do Clube Militar, no Rio de Janeiro (RJ), três mulheres lamentavam o resultado da reunião encerrada minutos antes e criticavam a “falta de ousadia” dos militares para combater o comunismo. O diálogo não é de 50 anos atrás: Tereza Alves, que se diz baronesa, e as irmãs Regina Helena e Leila Mello passaram a tarde de quinta-feira em debate com a presença do alto oficialato da reserva do Exército. Saíram indignadas, pois ansiavam por uma palavra de incentivo ao desejo de uma intervenção militar para tirar Dilma Rousseff do poder. Mas ouviram de generais que cabe às Forças Armadas apenas defender a Constituição.
O trio de senhoras sintetiza um grupo que foi às ruas nas manifestações de domingo passado e, apesar de minoritário, chamou atenção pela violência dos cartazes. Os intervencionistas – aqueles que defendem o retorno das Forças Armadas ao poder para tirar Dilma do governo – chegaram a dizer que a presidenta deveria ter sido morta nos porões da ditadura, quando foi presa e torturada na década de 1970. Pensamentos que o alto escalão do Exército refuta, pelo menos publicamente: apesar das violentas críticas ao governo, os generais do Rio se colocam contrários a qualquer sentimento golpista e repudiam seus apoiadores. “Isso aí é um público particular que vem aqui, não representa a sociedade. Nem eu nem os chefes militares concordamos com qualquer intervenção”, garante o presidente do Clube, general da reserva Gilberto Pimentel.
Diante do balde de água fria jogado pelos militares, as intervencionistas prometem se engajar e “tomar” Brasília (DF) com suas ideias “revolucionárias”. “Vamos invadir o Planalto em breve, porque manifestação virou carnaval”, prometem. “O comunismo precisa do capitalismo”, discursa Tereza.
Zumbi dos Palmares
Compareceram ao Clube Militar, para o encontro, oficiais da reserva, homens de em média 60 anos, e civis favoráveis à intervenção. A ideia era debater os rumos do País e prestar uma homenagem ao Dia do Soldado (25 de agosto), mas acabou sobrando para o líder negro Zumbi dos Palmares. “A quem interessa valorizar o Zumbi e não reconhecer o papel da princesa Isabel na abolição da escravidão?”, indagou o general Sérgio Castro, ao enumerar os pontos escolhidos pelo Clube como provas da ausência da “moralidade nacional”. (Leandro Resende/AD)
