Em meados da década de 1980, o jornalista e produtor musical Nelson Motta assistiu, na Itália, a um show da brasileira Marisa Monte, jovem que se apresentava na noite italiana cantando música brasileira. Encantado com o que ouviu, ele dirigiria o primeiro show de Marisa em sua volta ao Rio de Janeiro, em 1987, iniciando ali sua melhor aposta artística. Trinta e quatro anos e muita música depois, os amigos se encontraram na galeria de arte Carpintaria, no Jardim Botânico do Rio, para registrar alguns dedos de prosa, tendo como faísca o mais recente disco de Marisa, “Portas”.
O papo musical, de cerca de 1h, marca a estreia do programa “Nelson Motta entrevista…”, que o colunista do jornal O Globo comanda no Amazon Music, realizando um desejo antigo de ter uma série de conversas com artistas e profissionais da música. Leia a seguir, uma seleção com tópicos da conversa entre os amigos de longa data.
Estrela discreta
“Sempre tive muito claro que a música estava em primeiro plano. Não tenho a vaidade de ficar aparecendo, porque eu não seria uma pessoa pública se não fosse pela música. Sempre que a música for para o mundo, eu estarei lá. Fazer música já é muita exposição, subir ao palco, ter feito tantos discos, tantas entrevistas. Eu tenho uma vida pública esse tempo todo, você vai encontrar depoimentos meus e falas minhas em todos os momentos da minha vida. Respeito esse espaço público, não fico enchendo linguiça para me manter na mídia”.
Parcerias
“Eu acredito na mistura, não tem uma saída para a humanidade que não seja a mistura. E as parcerias se dão nessa vontade de somar e misturar com outros. Às vezes, são pessoas que fazem algo completamente diferente do que eu tenho, por isso mesmo fico interessada e dá certo. E em outras é parecido, e dá certo também”.
Marcelo Camelo
“Foi um grande interlocutor (do disco), ficou me ouvindo e me ajudando a repensar tudo, a contar para mim mesma o que eu estava querendo. E, nisso, se colocou à disposição para fazer arranjos e acabou fazendo cinco arranjos além da música dele (‘Espaçonaves’). Gravamos a orquestra por Zoom, ele em Lisboa. Conseguimos ser criativos e superar as dificuldades. Tornou-se um grande amigo, colaborou demais, para além dos arranjos, afetiva e efetivamente”.
Novos artistas
“O novo disco da Mallu Magalhães é lindo, ela é uma grande compositora. A Ava Rocha é muito interessante. A Ana Frango Elétrico, que é superalternativa, é ótima, foi do disco dela que conheci o (arranjador) Antonio Neves, que está no meu disco. Gosto da Céu, da Letrux. E o Silva, eu sou suspeita para falar”.
Ano de apagão
“Foi um ano difícil, não teve show, não pudemos ver as pessoas. No futuro, a gente vai perceber um certo apagão musical nesse tempo por problemas sobrepostos que tivemos. Não só a pandemia, mas também o desestímulo, os ‘desincentivos’ oficiais. É um ano de produção difícil”.
Momento político
“Esse momento de retração conservadora e até democrática, nós temos que estar atentos, mas vai impulsionar também valores que são fundamentais. Vai ter um momento que vamos avançar. O sofrimento e a dificuldade desse momento geram impulsos para o progresso que vai vir”. As informações são do jornal O Globo.
