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Não há dados suficientes para afirmar que a proxalutamida proporciona “cura” para casos graves de coronavírus

Resultados de ensaio clínicos com medicamento ainda não foram publicados. (Foto: Reprodução)

Mensagens nas redes sociais e no WhatsApp espalham boatos de que pesquisadores brasileiros teriam encontrado a “cura” para quadros graves de coronavírus. Os conteúdos enganosos repercutem os resultados de uma pesquisa clínica com o remédio proxalutamida, que ainda não foi detalhada em artigo científico ou analisada por cientistas independentes. Esse medicamento não é regulamentado pela Anvisa ou por agências reguladoras de outros países.

Um dos autores do trabalho rejeitou o discurso de que os dados apresentados até agora signifiquem a cura para o coronavírus. Especialistas consultadas disseram que ainda é cedo para afirmar a eficácia do medicamento e pedem mais informações do estudo. Os autores apresentaram os resultados apenas em uma série de slides durante evento no dia 10 de março em Manaus, no Amazonas.

Conduzida pela empresa norte-americana Applied Biology em parceria com a rede de serviços médicos amazonense Samel, a pesquisa avaliou os efeitos da proxalutamida, um medicamento antiandrógeno — bloqueador de hormônios masculinos da mesma classe da flutamida, que costuma ser utilizada contra câncer de próstata. O estudo testou o medicamento em pacientes hospitalizados com o coronavírus em 12 unidades de saúde de nove municípios do Estado do Amazonas.

O ensaio clínico envolveu 590 participantes, dos quais 294 receberam a terapia com a proxalutamida junto a um “atendimento padrão”. A outra parte foi submetida ao placebo, isto é, uma substância sem efeito. Segundo os autores, os testes indicaram uma redução de 92% na mortalidade de pacientes do grupo tratado com a proxalutamida, além de uma diminuição significativa no tempo de internação. Os dados de morbidade não foram detalhados na apresentação.

Embora os pesquisadores tenham apresentado o medicamento como uma “possível solução” para a covid-19, no WhatsApp e nas redes sociais o anúncio da pesquisa foi divulgado como “um dia glorioso para a ciência nacional” e a “bala de prata em pacientes com a doença avançada”. Especialistas alertam que ainda é cedo demais para falar nesses termos. Para a médica infectologista e professora da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) Conceição Pedroso, não se pode dizer que a droga é “milagrosa” até que o estudo seja detalhado em um artigo e depois analisado pela comunidade científica.

Pedroso cita a importância de os pesquisadores mostrarem um detalhamento sobre a morbidade dos pacientes envolvidos no estudo e a avaliação concreta sobre como os participantes foram recrutados. A médica infectologista e professora da Universidade de Campinas (Unicamp) Raquel Stucchi também mostra preocupação sobre a ausência de detalhes sobre a metodologia.

A cientista ressalta, por exemplo, a falta de dados sobre o “atendimento padrão” de pacientes. Os autores não informaram quais remédios ou procedimentos médicos foram adotados em conjunto à proxalutamida. Segundo Raquel, o tratamento pode variar entre os diferentes hospitais e impactar nos resultados. “Todos nós queremos uma droga eficaz contra a covid-19, mas precisamos de dados sólidos antes de distribuir promessas”, afirmou Stucchi.

O painel de evidências da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) cita um estudo anterior, sem revisão por pares, do mesmo grupo de pesquisadores que encontrou resultados positivos do tratamento com proxalutamida contra a hospitalização de pacientes masculinos com covid-19. A entidade, no entanto, apontou um alto risco de viés na estrutura da pesquisa. Portanto, ainda há incertezas sobre os benefícios do medicamento.

Dois dos coautores do estudo com proxalutamida, Flávio Cadegiani e Ricardo Zimerman, já defenderam o chamado “tratamento precoce” contra covid-19. Em janeiro, foi desmentido um vídeo em que o infectologista Zimerman recomendava o uso de medicamentos como a ivermectina, nitazoxanida e bromexina no combate ao coronavírus.

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