Como falar de ética em meio a rupturas geopolíticas e institucionais? Em meio a suspeitas de fraude eleitoral, a processos judiciais que parecem nascer por geração espontânea e depois saem à procura dos fatos que os justifiquem? Como pretender construir, ou reconstruir, relações pacificadas no meio do caos?
Faço essas perguntas a mim mesma há uma semana. E, quando a resposta não vem, a memória me leva para outro lugar.
Há dois anos, trabalhei num abrigo que acolhia pessoas atingidas pela enchente de 2024, aqui no Rio Grande do Sul. Ali havia um trauma coletivo, e todo trauma coletivo é a soma de milhares, às vezes milhões, de traumas individuais. Cada pessoa que chegava trazia a sua casa perdida, os seus documentos molhados, o seu bicho que ficou para trás. E, ainda assim, havia esperança. Ela estava no voluntário que chegava de madrugada com uma panela de sopa, no barqueiro que voltava mais uma vez, na senhora que dividia o único cobertor. Havia dor por todos os lados, mas ninguém duvidava de que estávamos do mesmo lado.
Hoje vivemos outro trauma coletivo. Desta vez ele foi além das fronteiras do Rio Grande do Sul e atingiu moralmente pelo menos sessenta milhões de pessoas no Brasil. E me pergunto: como falar em esperança agora?
Falar de esperança sempre foi algo complexo. Abençoada por muitos e amaldiçoada por outros, ela pode ser vista como aquilo que dá impulso à vida, e então se soma à espiritualidade e se associa a tantas religiões. Mas também pode ser entendida como uma ilusão perigosa, especialmente para os materialistas, para quem esperar é uma forma elegante de não agir.
O seu oposto, porém, nos leva a algo pior. A desesperança abre a porta para a descrença, para a desilusão, para a sensação de que o futuro não traz nenhuma perspectiva positiva. E daí vêm todos os sintomas e comportamentos que milhões de pessoas sentem neste momento: o cansaço sem causa, a irritação, a vontade de se fechar, de não ler mais notícias, de não conversar com mais ninguém.
Mas repare: tanto a esperança quanto a desesperança, salvo quando estamos acometidos por problemas sérios de saúde mental, têm algo em comum. São, na sua essência, efêmeras e volúveis. Vão e voltam. Acordamos com uma e vamos dormir com a outra.
E é exatamente aí que eu encontro uma saída. Se a esperança, enquanto sentimento, oscila tanto, então ela não pode ser o chão onde eu piso. Precisa ser outra coisa.
Penso em Viktor Frankl, um psiquiatra que passou pelos campos de concentração e sobreviveu para contar. Ele reparou numa coisa curiosa: quem aguentava melhor aquele horror não era quem tinha marcado uma data na cabeça, “até o Natal a gente sai daqui”. Quando o Natal chegava e nada mudava, essas pessoas desabavam. Quem resistia era quem tinha encontrado um sentido no que fazia, ainda que pequeno: cuidar de um companheiro, guardar na memória o rosto de alguém, pensar no livro que ainda queria escrever.
Ou seja, a esperança que aguenta o tranco não é ficar esperando que as coisas melhorem. É ter um motivo para levantar da cama, aconteça o que acontecer. Não depende do que eu sinto pela manhã, mas do que eu decido fazer à tarde. E é o mesmo que eu aprendi sobre a confiança nos contratos relacionais: ela não cai do céu, vai sendo construída em pequenos gestos, um depois do outro.
Volto ao abrigo, porque acho que ali está a chave.
Havia esperança porque aquele trauma unia. As águas não perguntaram a ninguém em quem votou. As pessoas se viam ajudando umas às outras, e a reciprocidade estava ali, visível, ao alcance da mão.
O trauma de agora é diferente: ele divide. O outro deixa de ser o vizinho e passa a ser o adversário. E cada lado carrega as suas próprias feridas, as suas próprias desconfianças, a sua própria certeza de ter razão. Quando o tecido coletivo se rasga assim, é natural sentir que não há mais mesa em que possamos nos sentar juntos.
Mas talvez seja justamente o contrário. É quando o grande tecido se rompe que as relações próximas, a sociedade, a parceria, a família, o grupo de trabalho, passam a ser o lugar onde a confiança ainda pode ser reconstruída. Eu não preciso consertar o país para fazer a minha parte. Preciso manter a minha mesa posta. E lembrar que, do outro lado dela, também pode se sentar alguém que pensa diferente de mim e que, nem por isso, deixa de ser alguém.
Não posso deixar de pensar assim, sob pena de negar o meu próprio exercício profissional. Também não posso negar a mim mesma a minha racionalidade: preciso reencontrá-la, mesmo em meio ao trauma.
É bem verdade que o Brasil tem se parecido, nos últimos anos, com a madrasta da Branca de Neve: bonito por fora, mas pouco confiável por dentro, sempre oferecendo à sua gente mais uma maçã envenenada. Mas, nos contos, a maçã nunca é o fim da história. Alguém sempre chega, alguém sempre acorda.
Sei também que, quando passamos por algum tipo de trauma, seja individual, seja coletivo, as nossas emoções ficam alteradas e, com elas, as funções executivas do cérebro: a capacidade de planejar, de decidir, de enxergar alternativas. Quiçá por saber alguma coisa sobre isso, eu tenha decidido escrever furiosamente. Como um impulso de sobrevivência física e, sobretudo, mental. Como quem tenta exorcizar os demônios pessimistas que me assombram há uma semana.
Escrever, para mim, é o primeiro gesto. Amanhã será outro: atender um cliente, sentar à mesa com duas partes que desconfiam uma da outra, ajudar alguém a recomeçar. Não é muito. Mas é o que está ao meu alcance, e é disso que a esperança é feita.
E não, não sou negativa. Sou daquelas que torcem pelo lado do impulso à vida. Para entenderem bem como eu sou, ainda tenho esperança de que o Inter não seja rebaixado no Brasileirão. E, se for, que me desculpe o restante da torcida, mas eu me recuso a ir para a segunda divisão.
Ana Luiza Panyagua Etchalus
