A campanha eleitoral vai ter o tema corrupção como critério primordial para o eleitor escolher o próximo presidente? Após as revelações recentes envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o Banco Master, e o presidente Lula (PT) e o seu filho, essa e outras perguntas estão sendo feitas pelo cientista político Beto Vasques, do Instituto Democracia em Xeque, em pesquisas qualitativas com os chamados eleitores independentes – aqueles que não se alinham automaticamente nem à esquerda nem à direita. Abaixo, Vasques conta sobre os resultados dos seus levantamentos.
– Quem está saindo mais afetado com o noticiário negativo de início de campanha no campo ético?
“Reparamos que a corrupção já não está mais sendo um elemento a ser considerado quando a gente tenta entender a inclinação do voto do eleitor. Hoje, as pessoas consideram que os dois lados estão lambuzados.”
– Petistas e bolsonaristas reclamam de falsa equivalência e, de fato, há diferenças entre os enredos e o grau de envolvimento dos candidatos, certo? “Para o eleitor, a questão do Flávio bate de duas formas: a biográfica, na medida em que o histórico dele sempre o coloca como personagem. Seja na ligação com o Daniel Vorcaro, seja na loja de chocolates e na rachadinha. E a moral, já que ele era do grupo que falava contra a corrupção do PT e foi pego com a “boca na botija”. Já tudo que envolve o Lula passa outra mensagem: a de que são fatos que envolvem roubos estruturais. Então, estamos dando a largada na campanha de um jeito mais acirrado do que se imaginava. A imagem positiva do Lula parece ter um limite e a negativa do Flávio se estabilizou.”
– O eleitor está gostando das respostas que as duas campanhas estão dando para os escândalos até agora? “Por ora, o Lula está indo melhor na forma para o eleitor. O presidente disse que o filho tinha que vir para o Brasil para depor e que se tiver culpa, vai ter que pagar. Além disso, reafirmou a autonomia da Polícia Federal para investigar. Já o Flávio até agora não abriu as contas dos repasses do Banco Master para o filme sobre o pai. Só que a campanha é dinâmica e haverá mais revelações a conta-gotas sobre o Lulinha. A percepção popular pode mudar e o eleitor achar que o Lula na verdade quer é aliviar o filho. E também entrará a campanha de TV do Flávio, que está na sua terceira fase agora.”
– Quais foram as três fases da campanha do PL? “A primeira, antes da divulgação do áudio do Flávio com o Vorcaro, pregava o combate à corrupção do PT. Depois, ele parou de falar do tema e focou na segurança pública. Agora, com a chegada do novo marqueteiro, o Duda Lima, ele voltou a querer falar de corrupção.”
– O PT fará o mesmo e também vai atacar o Flávio no tema corrupção com fatos de hoje e do passado. Não pode funcionar também? “Sim, o PT esperou para bater no Flávio agora para não correr o risco do PL trocar o candidato antes da data final do registro das candidaturas. Mas aí que volto ao meu ponto de que os argumentos dos dois lados estão se anulando. Até o caso “Dark horse”, a corrupção do Flávio sempre foi vista pelo eleitor como menor que a do PT. Mais ou menos assim: enquanto o escândalo do senador era o da rachadinha, com um sufixo no diminutivo, os do PT eram o Mensalão e o Petrolão. Ou seja, tudo no aumentativo. Só que os episódios do Flávio chamados de “inho” ganharam uma conotação Master agora, né.”
– Os dois estão fugindo de entrevistas e debates, só querem falar em ambientes confortáveis sobre corrupção na campanha… Acha que esse quadro vai se manter até o fim do primeiro turno? “É isso… Para Lula e Flávio, a pauta da corrupção só serve para ser usada no horário eleitoral gratuito, em palanques pelo Brasil ou nos cortes de vídeos das redes deles. Não é um tema para ser usado em confrontos como sabatinas e debates com amplo contraditório. Os dois estão muito na frente nas pesquisas e vão tentar evitar situações que possam fazê-los perder a dianteira. Ninguém ganha debate a ponto de ter um impacto positivo considerável na imagem, mas sair derrotado e queimado de um encontro desses é bem possível.” As informações são do jornal O Globo.
