O que certas autoridades dizem, em geral para justificar malfeitos, se constituem em verdadeiras ofensas à nossa inteligência. Nas notícias diárias dos jornais, dá para selecionar fartamente esses momentos de desavergonhada cara de pau e de cândido olhar de paisagem – é como se tomassem a todos nós como otários incorrigíveis.
O senhor Daniel Vorcaro, esse monumento à banca nacional, fez a felicidade de muitas autoridades da República. Em algum momento de sua trajetória, posterior aos fatos que o tornaram (mal) afamado, justificou a distribuição farta de mimos, presentes, contratos de advocacia de R$ 129 milhões para uma só advogada: disse que fez “tudo por amizade”.
Três ilustres membros do Ministério Público do Ceará foram à Copa do Mundo de Futebol nos EUA com diárias pagas pelo estado. Não se sabe se foram aos estádios vestidos com a camiseta da seleção. Segundo os procuradores, a jornada teve o objetivo de olhar de perto e estudar “protocolos de segurança, gestão de multidões e prevenção de conflitos, em eventos esportivos”.
Outro procurador, este do Ministério Público de São Paulo, Cicogne Faggion, está indignado: com o que está ganhando não conseguirá pagar as contas. Em abril recebeu R$ 147 mil líquidos de remuneração. O doutor Faggion é uma voz abalizada das reivindicações comuns no MP de que ganham pouco. Aqui, faça-se o justo parêntese: a imensa maioria de juízes e procuradores não está nessa, não frequentam o mesmo clube do doutor Faggion.
Camilo Santana (PT), disse que não teve nada a ver com a nomeação de sua esposa para conselheira do Tribunal de Contas do Estado do Ceará, cargo vitalício, remuneração no teto + penduricalhos. Foi por mérito, assegurou o ex-governador e atual ministro.
A doutora Cyntia Cordeiro é a presidenta do Sindicato dos Magistrados do Brasil. Em meio a um debate intenso sobre a matéria ela “sentenciou” que os assim chamados penduricalhos não são privilégios. Penduricalhos, vocês sabem, são aquelas vantagens adicionais, acima do teto constitucional, que inflam a remuneração de juízes e procuradores, além de outras carreiras do Judiciário.
O senador Jacques Wagner (PT-BA) entrou rachando no rolo do banco Master. É acusado de ter recebido um apartamento do valor de R$ 2.4 milhões de reais de um esquema ligado a Daniel Vorcaro; e em dois mandados judiciais de busca a PF apreendeu, no apart hotel que o senador se hospeda em Brasília, uma bolada de U$ 49 mil dólares; e no apartamento onde reside em Salvador mais 33 mil euros e U$ 6 mil dólares. Tudo em espécie, dinheiro vivo. O presidente Lula acha que as denúncias contra Wagner são “uma grande bobagem”.
Todas as notícias aqui veiculadas foram encontradas em edições recentes de jornais de grande circulação. O que eles têm em comum é a negação de fatos condenáveis, apesar de todas as evidências; são justificativas cínicas para fatos flagrados e documentados, e sobre os quais não pairam dúvidas.
Tão grave como o mal em si e o prejuízo que causam ao interesse comum, há a ofensa à nossa inteligência. Cometem as mais escandalosas violações da ética e da lei e de quebra nos chamam de néscios.
(titoguarniere@terra.com.br)