Formar médicos que pensem oncologicamente e incentivar pacientes a fazer um onco check-up são algumas das mudanças que o cirurgião oncológico Ademar Lopes, 69 anos, sugere para enfrentar o aumento dos casos de câncer que serão registrados no País nos próximos anos com o maior envelhecimento da população. Vice-presidente do A.C. Camargo Câncer Center, em São Paulo, hospital referência no tratamento em câncer em todo o País, o especialista defende que somente com essa nova visão será possível prevenir ou diagnosticar precocemente boa parte dos tumores.
Em relação aos cânceres mais frequentes entre as mulheres, Lopes comentou a evolução no tratamento do câncer de mama, que, em um futuro próximo, segundo ele, poderá ser feito sem a necessidade da temida cirurgia de retirada parcial ou total do órgão. A seguir, trechos da entrevista.
O que mudou no tratamento dos cânceres femininos de décadas atrás para o período atual?
Ademar Lopes – Quando comecei a exercer a profissão, o tratamento para o câncer de mama, por exemplo, era a mastectomia radical, que consistia na retirada de toda a mama. Esse procedimento trazia transtornos estéticos, funcionais e psíquicos muito importantes. Mas foi uma cirurgia que durou até a década de 1980. A partir de então, graças ao enfoque multidisciplinar do tratamento do câncer de mama, que é a associação da cirurgia, radioterapia e quimioterapia, passamos a fazer o chamado tratamento conservador para o câncer de mama. Hoje, na maioria das vezes, os tumores de mama são tratados retirando-se um quarto da mama. E o mais interessante é que estudos apontam que, num futuro próximo, as pacientes não deverão mais ser submetidas a cirurgia de retirada dos linfonodos, pois os resultados com radioterapia são muito similares. Acredito que, em um futuro não muito distante, a gente possa até não operar mais câncer de mama.
Acha que houve avanço também no campo da detecção precoce?
Lopes – O futuro de uma paciente portadora de câncer depende de alguns fatores como o diagnóstico precoce, perfil biológico do tumor, condições clínicas da paciente e de um bom planejamento terapêutico inicial. No caso do câncer de mama, nos estágios iniciais, podemos curar de 85% a 90% dos casos sem mutilação. O exame mais importante é a mamografia, e um dos grandes problemas do Brasil é que não há disponibilidade desses aparelhos em todas as regiões.
Como o sr. avalia o sistema de diagnóstico de outros tipos de câncer com grande incidência entre as mulheres?
Lopes – Até alguns anos atrás, o câncer de colo do útero era o segundo mais frequente na mulher brasileira. Hoje, ele passou para o terceiro lugar. Isso pode estar relacionado a uma maior informação da mulher sobre esse tipo de tumor e das campanhas de prevenção e diagnóstico precoce. Mas, por outro lado, o câncer do intestino grosso passou a ser o segundo tipo de tumor mais incidente. Em torno de 8% a 10% dos casos são hereditários e os demais fatores de risco estão relacionados à idade, dieta pobre em fibras e alto consumo de carnes vermelhas. Além disso, obesidade, tabagismo e consumo de álcool também contribuem.
Embora o tumor de intestino seja o segundo câncer mais frequente na mulher, a colonoscopia não é um exame tão divulgado quanto a mamografia e o papanicolau, por exemplo. Esse tumor não deveria ter mais atenção?
Lopes – Acho que precisa ser mais divulgado que o câncer do intestino grosso é uma doença frequente, que podemos fazer prevenção adotando medidas contrárias a esses fatores de risco e quase 100% dos casos desse tumor vêm de um pólipo, uma espécie de pequena verruguinha que fica pendurada na camada interna do intestino, pedindo para ser retirado com a colonoscopia. Qualquer pessoa a partir dos 50 anos deve fazer esse exame e, se ele for normal, não precisa repetir todo ano. (AE)
