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O amor mora ao lado, cada um no seu metro quadrado

Uma nova tendência silenciosa vem ganhando força entre os pacientes e atende por uma sigla elegante: LAT, ou Living Apart Together. (Foto: Divulgação)

A sabedoria popular e as comédias românticas dizem que o ápice do amor verdadeiro é quando o casal decide “juntar as escovas de dentes”.

Você empacota seus livros, o outro leva as canecas, e ambos passam a compartilhar o mesmo teto, o boleto do condomínio e o ralo cheio de cabelos. É o protocolo clássico do casamento tradicional. Mas o que acontece quando a vida real ganha contornos diferentes dentro de quatro paredes?

Nas últimas semanas, tenho me pegado refletindo sobre isso ao abrir a porta do meu consultório. Diante de mim, no divã, o cenário amoroso contemporâneo tem se desenhado de uma forma que desafia a nossa visão clássica de convivência.

Uma nova tendência silenciosa vem ganhando força entre os pacientes e atende por uma sigla elegante: LAT, ou Living Apart Together. Em bom português: “Juntos, mas em Casas Separadas”.

Quero deixar claro, desde já, que o meu papel aqui é o de uma observadora atenta dos fenômenos humanos, e não a de uma defensora ferrenha dessa nova cartilha. Como profissional, assisto a essa dança conjugal com uma boa dose de ceticismo. Não significa que eu concorde plenamente com a ideia ou que ache que ela seja a salvação afetiva para todo mundo. Longe disso. Mas o fato é que ela bate à minha porta todas as semanas, camuflada em desabafos de quem tenta equilibrar o afeto e a sanidade mental.

Para quem nunca ouviu falar, o arranjo não é uma crise ou aquele “tempo” gourmetizado que antecede o divórcio. É um modelo estruturado onde o compromisso, a fidelidade e o afeto continuam intactos, mas a rotina doméstica e a chave da casa não são compartilhadas.

Eles se amam, planejam o futuro, mas, na hora de dormir, cada um vai para o seu próprio quadrado.

À primeira vista, a ideia soa como o ápice do egoísmo moderno, imaturidade ou excentricidade. “Se não quer morar junto, é porque não ama!”, decretaria a tia-avó no almoço de domingo. No entanto, no divã, o que vejo não é falta de afeto. Muitas vezes, é o oposto: o medo desesperado de que o amor acabe sufocado pela burocracia do cotidiano.

Convenhamos, o que costuma minar o desejo e a paciência de um casal após os primeiros anos sob o mesmo teto? Raramente são as grandes tragédias. Na maioria das vezes, o vilão veste a capa da banalidade diária. São as discussões sobre a vez de tirar o lixo, a louça amanhecida na pia, a toalha molhada na cama ou o clássico: “Por que você comprou leite integral se eu pedi o desnatado?”.

Ao eliminar a gerência conjunta de um lar, o casal LAT extirpa da relação essa microburocracia que drena as energias. O encontro deixa de ser um “esbarrão de cansaço” no corredor após o expediente e ganha o status de um evento planejado. Há o perfume escolhido, a saudade acumulada e a preservação do mistério, esse ingrediente que a intimidade excessiva costuma devorar logo no café da manhã.

Obviamente, o consultório também me mostra as entrelinhas reais. O LAT exige, antes de tudo, privilégio financeiro. Manter dois aluguéis no cenário atual é um luxo para poucos. Além disso, exige uma autoestima blindada.

É preciso maturidade para entender que se o parceiro quer passar a noite sozinho, ele não está te rejeitando; está apenas exercendo o direito de assistir ao seu futebol em paz, de cueca furada, sem precisar dar satisfações.

Como psicóloga, me pergunto se este é o verdadeiro futuro dos relacionamentos ou apenas um sintoma da nossa crescente incapacidade de negociar diferenças e suportar o tédio do outro. Estaríamos nos tornando intolerantes demais para dividir o armário?

Não tenho uma resposta definitiva. Mas o Living Apart Together nos força a encarar uma verdade: amar não precisa ser sinônimo de fusão total.

É possível partilhar a vida e os planos sem ter que disputar o controle remoto ou o espaço do guarda-roupa. Se essa moda veio para ficar ou se é apenas um verniz moderninho para o medo do compromisso real, só o tempo dirá.

Por enquanto, sigo aqui no consultório, observando meus pacientes tentarem descobrir se o amor verdadeiro mora no abraço ou na porta ao lado.

Até a próxima consulta.

* Tatiane Scotta, psicóloga, sexóloga e palestrante

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