Com o agravamento da pandemia e o aumento das medidas restritivas necessárias para conter o avanço da Covid-19, indústria e varejo estão tendo de passar por uma nova onda de adaptação. Falta de matéria-prima, atrasos nas entregas por parte de fornecedores e entraves de logística colocaram empresas em alerta.
Além de redução da produção e adoção de novas estratégias de atendimento, já há quem fale em aumento de preços ao consumidor.
A indústria começa a readaptar suas linhas de produção, reduzindo a velocidade de fabricação, já que alguns pedidos de lojistas têm sido cancelados. Em cidades onde foi decretado lockdown no interior de São Paulo, empresas são obrigadas a trabalhar com apenas 30% do efetivo.
Além disso, o comércio fechado nesses municípios trava um dos principais canais de escoamento de produtos como roupas ou brinquedos.
Na fabricante de brinquedos Estrela, por exemplo, embora as vendas pelo e-commerce tenham crescido no ano passado, as lojas físicas ainda são as principais responsáveis pela comercialização dos produtos, segundo o presidente da empresa, Carlos Tilkian.
Além disso, os prazos de entrega de matérias-primas, como termoplásticos e embalagens de papelão, subiram de 30 dias para 90 dias, e os insumos ficaram de 15% a 30% mais caros.
“Com lojas fechadas, os pedidos de novos produtos reduzem, e isso se reflete negativamente na nossa expectativa de faturamento”, afirma Tilkian. “Não houve paralisações, mas diminuímos a produção de alguns itens para não deixar o mercado totalmente desabastecido.”
Alexandre Ostrowiecki, presidente da Multilaser, fabricante de eletroeletrônicos, diz que a dificuldade de fazer os produtos chegarem ao consumidor vem aumentando os custos:
“Em muitas cidades do Sul e do Sudeste, as restrições estão gerando alta nos custos logísticos, com aumento nos preços de até 15%, pois os caminhões precisam esperar até o dia seguinte para abastecer o varejo.”
Atraso nas entregas
Ostrowiecki lembra que as cadeias produtivas globais ainda não voltaram ao nível pré-Covid, e que muitas vezes é preciso esperar meses por peças da China:
“Telas de computadores e mesmo peças de bicicletas estão demorando até seis meses para chegar ao Brasil. Isso tudo atrapalha o abastecimento. Por isso, precisamos de medidas inteligentes do setor público. O ideal é ter previsibilidade, pois, a depender do ritmo dos fechamentos, poderá haver falta de produtos.”
No varejo, a preocupação com o atraso nas entregas já é uma realidade. A Kalunga, com 225 lojas no Brasil, diz que os bloqueios nas cidades elevam as vendas pela internet, como reflexo direto das restrições nas lojas físicas.
Segundo Hoslei Pimenta, diretor Comercial e de Operações da rede, o fornecimento de produtos em sua central de distribuição, em Barueri, em São Paulo, sofre com interrupções desde o ano passado por conta da Covid-19:
“Há uma preocupação de como esses fechamentos nas cidades vão se refletir no abastecimento. Há problemas desde o ano passado envolvendo matérias-primas e embalagens. Hoje, temos atrasos nas entregas em algumas localidades por conta da sobrecarga das distribuidoras em algumas regiões.”
Para driblar esses desafios, a empresa montou uma nova estratégia, permitindo que o próprio cliente retire nas lojas os produtos comprados pela internet, solução que já soma 30% das vendas on-line. Além disso, a Kalunga vem monitorando a situação em todas as cidades para evitar graves problemas de abastecimento.
“Quando há previsibilidade de que vai fechar, tentamos aumentar o estoque das lojas com os produtos de maior giro”, diz Pimenta.
A mesma preocupação de abastecimento ocorre no setor de construção. Segundo Fernando Guedes, vice-presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), há atrasos no fornecimento de insumos em todo o Brasil:
“Dependendo do nível de fechamento das cidades, há dificuldade de compra e entrega. Desde o ano passado, sofremos com uma desorganização na cadeia, com o aumento nos preços dos insumos e o desabastecimento de alguns itens. Mesmo com a retomada da economia, ainda no ano passado, não conseguimos atender à demanda na integralidade.” As informações são do jornal O Globo.
