A onda conservadora que pode levar Jair Bolsonaro (PSL) ao Palácio do Planalto já garantiu uma cadeira na Câmara dos Deputados para a advogada Christine Tonietto, 27 anos, militante católica que fez campanha contra o aborto e diz ter orado contra o comunismo na véspera da eleição.
Em agosto, ela estava na plateia de uma audiência do STF (Supremo Tribunal Federal) quando o ministro Luís Roberto Barroso defendeu o direito ao aborto. A advogada argumentou que a maioria da população é contra a legalização e sugeriu que cabe ao Congresso dar a última palavra sobre o assunto, não ao STF.
Barroso defendeu seu ponto de vista, apontando os riscos enfrentados por mulheres que fazem aborto em condições inseguras, e acusou de intolerância os defensores da criminalização. Homens na plateia o chamaram de abortista, aos gritos, e o ministro deixou o auditório sob vaias e aplausos.
Eleita pelo PSL com 38 mil votos no Rio, Christine faz parte de um grupo que acompanhará a ascensão da direita ao poder se Bolsonaro vencer o segundo turno da disputa presidencial. Com 52 deputados eleitos, seu partido terá a segunda maior bancada da Câmara a partir de fevereiro, desbancando siglas tradicionais como o MDB e o PSDB.
Desde o fim da ditadura militar (1964-1985), nunca um partido acumulou tanta força em tão pouco tempo. Bolsonaro e a maioria dos deputados que ajudou a eleger entraram em março no Partido Social Liberal, que conseguira só uma cadeira na Câmara na eleição anterior, em 2014.
O PSL foi a sigla que recebeu mais votos na eleição para a Câmara desta vez, alcançando 11% do total. O PT, que fez 56 deputados e formou a maior bancada, só atingiu patamar semelhante na terceira eleição que disputou após a sua fundação, segundo o cientista político Jairo Nicolau.
Três deputados foram reeleitos com a legenda do PSL, entre eles Eduardo Bolsonaro (SP), um dos filhos do capitão reformado, e há outros políticos profissionais na bancada eleita. Mas a maioria dos seus integrantes é formada por novatos que disputaram a sua primeira eleição, como Christine.
Dos 52 eleitos, 30 concorreram pela primeira vez agora, o equivalente a 58% do total. “É um partido de cidadãos comuns, mais do que qualquer outro”, diz Nicolau, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “São pessoas que dificilmente teriam chance em legendas tradicionais.”
O subtenente do Exército Hélio Fernando Barbosa Lopes, que Bolsonaro e seus amigos chamam de Hélio Negão, foi o mais votado no Rio. Em Mato Grosso, o campeão foi o pecuarista Nelson Ned Previdente, que faz sucesso como Nelson Barbudo em um canal de vídeos na internet.
“Sempre houve pessoas com esse perfil no Congresso, mas esta é a primeira vez que chegam com tanta legitimidade”, disse Antônio Augusto de Queiroz, diretor do Diap (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar). “Se tiverem a força do governo a seu lado, não serão minoritários como os que os antecederam.”
Em São Paulo, onde Eduardo Bolsonaro obteve 1,8 milhão de votos e se tornou o campeão da eleição para a Câmara, o partido teve apoio suficiente para conquistar mais sete cadeiras na Casa, calcula Lara Mesquita, da Fundação Getulio Vargas. Só não conseguiu porque outros candidatos não alcançaram a votação mínima exigida pela lei.
Policiais e militares ocuparão 21 das 52 vagas conquistadas pela bancada bolsonarista. Há dois generais da reserva, quatro delegados e um tenente-coronel da Polícia Militar de São Paulo, todos eleitos com promessas de endurecimento no combate ao crime.
A ala mais ruidosa reúne uma dezena de ativistas que ganharam notoriedade na campanha pelo impeachment de Dilma Rousseff (PT), em 2016. Quase todos novatos, são personalidades atuantes nas redes sociais, como a jornalista Joice Hasselmann e o ex-ator pornô Alexandre Frota.
“Embora heterogênea, a bancada representa o mais puro sentimento de mudança que a sociedade expressou na eleição”, diz o deputado eleito Luciano Bivar (PE), que presidia o PSL antes da chegada de Bolsonaro e deve reassumir o posto no próximo ano. Só 15 dos 52 eleitos pela sigla contaram com ajuda financeira do partido na campanha, e Bivar e o deputado reeleito Marcelo Álvaro Antônio (MG) ficaram com dois terços do dinheiro. A maioria se contentou com declarações de apoio de Bolsonaro e seus filhos.
No encontro que os eleitos tiveram com o capitão na sexta (12), a ordem foi para que todos se mobilizassem para assegurar a sua vitória no segundo turno. Só depois disso o partido pretende começar a discutir a atuação da bancada.
