Basta acompanhar uma conversa de família, um grupo de WhatsApp ou alguns minutos nas redes sociais para perceber que a eleição já começou, mesmo antes da campanha oficial. Não faltam opiniões. Falta disposição para ouvir. Em poucos temas os brasileiros parecem perder tão depressa a curiosidade sobre o que pensa o outro. Cada lado fala para os seus, enquanto o adversário deixa de ser apenas alguém que enxerga o país de forma diferente e passa a ser tratado como um problema a ser eliminado.
É curioso porque, em regra, ninguém muda de convicção depois de uma discussão política. O que muda, muitas vezes, são as relações pessoais. Amizades esfriam, famílias evitam determinados assuntos à mesa e antigos espaços de convivência acabam transformados em arenas onde importa mais vencer do que compreender.
Foi exatamente esse tipo de simplificação que levou Norberto Bobbio a escrever Direita e Esquerda. O livro nasceu em um momento em que muitos anunciavam o fim das ideologias, mas sua pergunta continua atual: afinal, ainda faz sentido falar em direita e esquerda?
A resposta é positiva, embora por um caminho bem diferente daquele que costuma dominar o debate público. Bobbio não procura separar os democratas dos autoritários, os inteligentes dos ignorantes ou os bons dos maus. Para ele, essa divisão moral pouco explica a política. A diferença mais profunda está em outro lugar: na forma como cada tradição política encara a igualdade.
Quem se identifica com a esquerda costuma acreditar que boa parte das desigualdades existentes foi construída historicamente e, portanto, pode ser reduzida pela ação coletiva e pelas políticas públicas. Já a direita tende a olhar essas diferenças com maior cautela. Em geral, entende que elas decorrem também do mérito, do esforço individual, dos talentos de cada pessoa e das escolhas feitas ao longo da vida. Daí sua conhecida resistência ao aumento da intervenção estatal como instrumento de nivelamento social.
Essa talvez seja a principal contribuição de Bobbio: obrigar-nos a abandonar caricaturas. Defender programas voltados à redução das desigualdades não torna alguém inimigo da liberdade. Da mesma forma, sustentar que o Estado deve ter limites não significa indiferença diante da pobreza ou das dificuldades enfrentadas pelos mais vulneráveis. A política é mais complexa do que as etiquetas que lhe atribuímos.
O problema é que a polarização costuma rejeitar justamente essa complexidade. Hoje parece existir uma necessidade permanente de transformar qualquer discordância em julgamento moral. Quem pensa diferente deixa de ser um interlocutor para se tornar suspeito. O debate cede lugar ao rótulo.
As redes sociais ampliaram esse fenômeno. Seus algoritmos nos aproximam de quem confirma nossas convicções e afastam quem poderia questioná-las. Aos poucos, criam pequenas comunidades onde todos parecem pensar igual. É confortável. Mas também é perigoso. Quando convivemos apenas com opiniões semelhantes às nossas, perdemos o hábito de considerar que o outro pode ter razões legítimas para defender uma solução diferente.
Isso não significa que a distinção proposta por Bobbio explique toda a política contemporânea. O mundo mudou muito desde que ele escreveu seu livro. Temas como imigração, identidade cultural, religião, meio ambiente, soberania nacional ou os impactos da inteligência artificial atravessam, muitas vezes, a antiga fronteira entre direita e esquerda. Existem movimentos politicamente difíceis de classificar, justamente porque misturam posições que antes pareciam incompatíveis.
Ainda assim, sua reflexão permanece valiosa. Não porque ofereça respostas definitivas, mas porque nos lembra de uma verdade frequentemente esquecida: a democracia não exige unanimidade. Ela depende da convivência entre pessoas que atribuem pesos diferentes a valores igualmente importantes, como igualdade e liberdade.
Talvez seja essa a principal lição para o Brasil que se aproxima de mais uma eleição. Antes de decidir em quem votar, talvez devêssemos recuperar algo que anda em falta no espaço público: a disposição de compreender o argumento alheio antes de descartá-lo. Nenhuma sociedade se fortalece quando transforma divergências em inimizades permanentes. As urnas passam. A democracia, para sobreviver, precisa permanecer.
Amílcar Fagundes Freitas Macedo – gabinete-amilcar@tjmrs.jus.br
