Existe um conflito econômico que o Brasil precisa enfrentar com mais coragem: até quando os juros elevados serão tratados como solução para todos os problemas da economia brasileira?
Durante décadas, consolidou-se no país uma espécie de consenso econômico. Para controlar a inflação, é preciso elevar os juros. Para recuperar a confiança do mercado, é preciso cortar despesas. Para equilibrar as contas públicas, o estado precisa gastar menos. Essas medidas têm seu papel, mas será que essa receita, aplicada quase como um dogma, está levando o Brasil ao desenvolvimento que precisamos?
O economista André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, tem provocado uma reflexão importante sobre esse modelo. E considero que suas ideias merecem ser levadas a sério.
Lara Resende questiona a interpretação de que o principal problema das contas públicas brasileiras está necessariamente nos gastos do governo. Para ele, o custo dos juros sobre a dívida pública ocupa um papel central no desequilíbrio fiscal. Não se trata de negar a necessidade de responsabilidade com o dinheiro público, mas de discutir por que o Brasil paga tanto para financiar sua própria dívida.
Os números ajudam a compreender a dimensão do problema. Os juros consumiram mais de R$ 1,1 trilhão em 12 meses, aproximadamente 8,9% do PIB. É um volume extraordinário de recursos que poderia alimentar investimentos, ampliar políticas públicas e impulsionar a atividade econômica.
Precisamos nos questionar: que país consegue construir um projeto consistente de desenvolvimento quando uma parcela tão expressiva de sua riqueza é comprometida com o custo do dinheiro?
A tese de Lara Resende vai além de uma simples defesa da redução da Selic. Ele propõe uma nova coordenação entre as políticas fiscal e monetária, com metas de médio prazo para juros, inflação e resultado das contas públicas. A ideia é romper com a lógica de que o equilíbrio fiscal depende exclusivamente de cortes nas despesas primárias, sem enfrentar o peso dos juros.
É evidente que a inflação precisa ser combatida. A estabilidade da moeda é uma conquista que não podemos colocar em risco. O poder de compra dos trabalhadores, especialmente daqueles que vivem de salário, depende diretamente dela, mas também precisamos reconhecer que juros elevados encarecem o crédito, dificultam investimentos, pressionam empresas, inibem o consumo e tornam mais cara a própria dívida pública.
Há uma contradição que merece atenção: a política adotada para combater o desequilíbrio fiscal pode acabar elevando ainda mais os custos gerados por essa instabilidade.
O Brasil não pode ficar preso à falsa escolha entre responsabilidade fiscal e desenvolvimento, precisamos das duas coisas. Um estado que gaste melhor, combata privilégios, reveja distorções e tenha planejamento, mas que também seja capaz de investir em infraestrutura, educação, ciência, tecnologia e capacidade produtiva.
Olhando para o próximo período, o desafio será justamente encontrar esse equilíbrio. As projeções do Banco Central apontam desaceleração do crescimento econômico em 2026 e 2027. O cenário exige atenção, pois um país que cresce pouco tem mais dificuldade para gerar empregos de qualidade, ampliar sua arrecadação e reduzir o peso relativo de sua dívida.
Também não podemos ignorar o cenário internacional, as tensões geopolíticas, os preços das commodities e os desafios de produtividade da nossa economia. O Brasil precisa aproveitar suas potencialidades, fortalecer a indústria, agregar valor à produção agropecuária e ampliar sua capacidade de inovação.
É por isso que considero tão relevante a contribuição de André Lara Resende. Suas ideias nos convidam a abandonar respostas automáticas e discutir a economia a partir de seus resultados concretos para a sociedade.
Não existe desenvolvimento sustentável sem estabilidade econômica, mas também não existe um projeto nacional de desenvolvimento que se limite a administrar juros, dívida e metas fiscais. A economia precisa estar a serviço do país e das pessoas. O dinheiro público deve ser tratado com responsabilidade, mas não podemos esquecer que o maior objetivo de uma política econômica é melhorar a vida da população.
O Brasil deve discutir não apenas quanto gasta, mas quanto custa manter o atual modelo econômico. E, principalmente, precisa decidir se quer continuar administrando suas limitações ou construir as condições para crescer.
O debate proposto por Lara Resende merece espaço. Não como uma verdade incontestável, mas como uma alternativa que desafia ideias estabelecidas e nos obriga a pensar em um Brasil que produza mais, invista mais e distribua melhor as oportunidades de crescimento.
* Guto Lopes é jornalista e comunicador na Rede Pampa de Comunicação
