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O caminho das leituras que moldaram minha visão do Brasil

Hoje, ao olhar para trás, vejo que cada leitura foi uma pedra fundamental na construção da minha consciência. (Foto: Reprodução)

Minha compreensão das questões do Brasil não nasceu pronta. Foi sendo moldada, lentamente, por experiências de estudo, por leituras que me desafiaram e por um espírito curioso que sempre buscou enxergar além da superfície. No ensino fundamental, no Colégio Irmã Teofânia em Garibaldi, tive um momento decisivo: em uma avaliação de leitura, o professor me indicou As Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeano. Para um estudante ainda em formação, mergulhar naquele livro era como abrir uma janela para um mundo desconhecido. O texto me apresentou ao tema do imperialismo, às feridas históricas da exploração e às contradições que atravessam nosso continente. Foi um choque de realidade. Naquele tempo, não havia internet para consultar contrapontos ou explicações rápidas. O recurso era o dicionário, carregado junto ao livro, para decifrar cada palavra difícil. Era um esforço imenso, mas também uma aventura intelectual que despertava em mim a vontade de compreender.

Sempre gostei de desafios, mas confesso que meu talento não estava nas matérias exatas. Matemática, física e química me pareciam distantes, e por isso optei pelo ensino médio profissionalizante, onde me mantinha longe de cálculos complexos e tabelas periódicas. No entanto, havia algo que me acompanhava: o hábito da leitura. E esse hábito era profundo, completo, diferente da avalanche de informações fragmentadas que hoje nos atinge pelas redes sociais e pelos meios digitais. Naquele tempo, o conhecimento era mais difícil de obter, mas o espírito era mais livre. Ler era um mergulho, não um consumo rápido. E esse mergulho foi moldando minha forma de pensar.

Depois de Galeano, vieram outros livros que marcaram minha formação. A trilogia O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo, me fizeram compreender a saga do Rio Grande do Sul e, ao mesmo tempo, a construção da identidade brasileira. Era como se cada personagem carregasse em si um pedaço da história coletiva, mostrando que o Brasil não é apenas um país, mas uma narrativa em constante disputa. Já Vidas Secas, de Graciliano Ramos me apresentou à dureza da vida no sertão, à luta pela sobrevivência e à dignidade em meio à escassez. Essa obra me ensinou que compreender o Brasil exige olhar para os que vivem à margem, para os que carregam no corpo e na alma as marcas da desigualdade.

Essas leituras foram moldando minha percepção. Elas me mostraram que o Brasil é feito de contradições, de grandezas e de feridas, de potencial e de limitações. Elas me ensinaram que não basta olhar para os números da economia ou para os discursos oficiais; é preciso compreender as histórias, os contextos, os silêncios. Com o tempo, essa visão foi amadurecendo. Fui encontrando caminhos para deixar minha contribuição, ainda sem saber ao certo qual seria o alcance desse propósito. Mas percebi que minha missão estava em pensar o Brasil não apenas como território, mas como projeto de sociedade. E esse projeto só se sustenta quando reconhecemos nossas raízes, nossas dores e nossas possibilidades.

Hoje, ao olhar para trás, vejo que cada leitura foi uma pedra fundamental na construção da minha consciência. Galeano me mostrou as veias abertas da América Latina, Veríssimo me revelou a saga de um povo e Graciliano me fez sentir a secura da terra e da vida. Juntos, esses autores me ensinaram que compreender o Brasil é compreender a humanidade em sua luta por dignidade, liberdade e futuro. E é nesse espírito que sigo, buscando transformar conhecimento em ação, reflexão em contribuição, leitura em legado.

* Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética (Contato: rena.zimm@gmail.com)

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