O Senado americano sabatinou nesta terça-feira (17) o indicado pelo presidente Donald Trump para o cargo de embaixador no Brasil, Todd Chapman. Na sabatina, os senadores da Comissão de Relações Exteriores não pouparam críticas ao governo brasileiro. Eles afirmaram que a atual política de direitos humanos é “preocupante” e está “caminhando na direção errada”. Também questionaram como o governo americano irá lidar com o terrorismo na Tríplice Fronteira, o desmatamento na Amazônia e a corrupção em empresas como a JBS. As informações são do jornal O Globo.
“Acho as tendências extremamente preocupantes naquele país sob sua liderança atual. Quando o presidente chama os protestos no Chile, na Colômbia e em outros países de atos terroristas, ele está se referindo ao que está acontecendo em seu próprio país, com relação a protestos dentro da lei, em um esforço para mudar os princípios democráticos do Brasil, organizando o jogo em favor do atual governo. Os direitos humanos nesse país estão caminhando na direção errada”, disse o senador democrata Ben Cardin.
Chapman respondeu que se compromete a ter “discussões francas” com o governo brasileiro e que falará com “um espectro amplo” da sociedade civil brasileira. Disse também que os dois países cooperam no tema, especialmente em liberdade religiosa, combate ao tráfico de pessoas e refugiados venezuelanos.
Cardin não foi o único a questionar o indicado de Trump sobre questões de direitos humanos. A senadora democrata Jeanne Shaheen disse que “sob o governo Bolsonaro, houve alegações de que seus comentários aumentaram o comportamento misógino”.
O tema que mais apareceu foi Amazônia. Cardin citou a “falta de compromisso” do governo com o meio ambiente, disse que o Brasil já perdeu em área de floresta amazônica o equivalente a 12 vezes o tamanho de Nova York desde agosto e afirmou que o governo americano só recebe “respostas arrogantes” quando tenta se engajar.
“Nós reconhecemos que o Brasil é responsável pelo controle do seu território, mas a floresta Amazônica é um tesouro universal.”
O indicado de Trump argumentou que incêndios na Amazônia são “ocorrências anuais”. O texano também afirmou que, quando morou em Brasília, podia ver a fumaça se aproximando entre agosto e outubro. Apesar da afirmação, o bioma em que está localizada a cidade de Brasília é o cerrado, não o amazônico.
Chapman afirmou que Brasil e EUA têm um “plano de engajamento construtivo” para lidar com os incêndios, que inclui seis especialistas americanos enviados ao Brasil, uma parceria com a agência de ajuda internacional americana e fundo de U$ 100 milhões para que o setor privado atue na região.
“É importante que tenhamos um diálogo construtivo, que seja um diálogo em que eles acreditem que nós estamos do mesmo lado, que queremos as mesmas coisas.”
Já o senador democrata Tim Kaine aproveitou o tema para falar sobre interesses econômicos dos EUA, afirmando que a questão do desmatamento “está um pouco ligada a nós”.
“Os temas de comércio estão levando ao completo abandono das exportações de soja dos Estados Unidos para a China, o que levou a China a procurar outros mercados. Parte do desmatamento na Amazônia foi feito para abrir espaço para cultivar soja à medida que a China olha para o Brasil como exportador de soja.”
Até mesmo o senador republicano Marco Rubio, que escreveu artigo no início do ano defendendo a aproximação entre os governos Trump e Bolsonaro, se reuniu com o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e costuma defender a atuação do governo brasileiro em temas como China e Venezuela trouxe sua dose de crítica.
O senador afirmou que o Brasil é um “aliado muito importante em comércio e segurança”, mas aproveitou para citar uma carta assinada por ele e pelo democrata Bob Menendez em que pedem ao Tesouro americano para investigar negócios da brasileira JBS nos EUA.
Rubio citou os casos de corrupção envolvendo a empresa e pediu que o futuro embaixador no Brasil preste atenção no caso. Chapman respondeu que combater a corrupção é interesse comum dos dois governos.
Rubio também afirmou que é preciso fortalecer a cooperação com o Brasil em temas de comércio e de combate ao terrorismo para “monitorar terroristas estrangeiros que usam aeroportos no Brasil, como em São Paulo, como um hub para entrar nas Américas”.
“A área que conecta Paraguai, Argentina e Brasil se tornou refúgio seguro para o crime organizado e grupos terroristas, que incluem o Hezbollah.”
