O juiz federal Sérgio Moro disse nesta terça-feira (15) que o Congresso Nacional não está empenhado em fazer “uma verdadeira reforma política”. A crítica veio no dia em que a Câmara dos Deputados pode começar a votar as regras para repartir um novo fundo público que distribuiria R$ 3,6 bilhões entre partidos e candidatos.
Um dos protagonista da Operação Lava-Jato, o magistrado elogiou a decisão do Supremo Tribunal Federal de proibir doações empresariais, mas ponderou se não era o caso de flexibilizar o veto. “Poderia se pensar em restabelecê-las, desde que com limites muito rígidos”, disse o principal convidado do evento Mitos & Fatos, um fórum sobre a Justiça brasileira realizado em São Paulo.
Impor “limites baixos” para que assim “um candidato não se sinta um devedor” de quem colaborou com sua campanha poderia ser uma solução, de acordo com Moro. O juiz reconheceu como “anomalias” empresas que tinham grandes contratos com o poder público injetando dinheiro em campanhas.
Moro citou “casos ainda mais grotescos”, quando as empresas aportavam verba “em todo o espectro político, como se fosse uma espécie de contrato-seguro”. Ou seja, uma forma de “ficar bem” com todo mundo, não importa quem ganhasse o pleito.
“Mas a democracia de massa tem algum custo e talvez a doação de pessoas físicas não seja suficiente. Até tenho simpatia pelo financiamento público, mas não necessariamente pelo financiamento público exclusivo”, completou. A grande questão, segundo o juiz, é como o fundo bilionário vai ser distribuído. “Há uma tendência de quem está dentro do sistema queira continuar dentro e queira deixar fora quem está fora. O financiamento público, por bem intencionado que seja, tem quem ser muito bem pensado para evitar esse tipo de problema.”
“Aqui vai uma crítica, com muito respeito ao nosso Parlamento”, afirmou, e então desferiu o ataque: “Esta reforma política não é uma verdadeira reforma política. Tem que pensar de uma maneira diferente para enfrentar esse problema”.
Presidência
Chegada a hora de responder a perguntas da plateia, Moro se viu diante de uma questão recorrente em sua vida: afinal, ele quer ou não quer ser presidente do Brasil? A despeito de apontar a política como “uma das profissões mais belas”, disse que declararia “quantas vezes forem necessárias” que não será candidato ao Palácio do Planalto. Seu nome aparece bem posicionado em pesquisas espontâneas para as eleições de 2018.
“Já falei mais de uma vez: a profissão política é uma das mais belas. Nós, eventualmente, temos uma imagem pejorativa dela por conta de eventuais escândalos criminais, mas existem muitos bons políticos. Mas penso que precisa ter um certo perfil, e sinceramente não me vejo com esse perfil”, disse o magistrado, que chegou no evento escoltado por mais de dez policiais federais.
O juiz paranaense cobrou que o Supremo não recue de “decisões relevantes”, como a de permitir que réus condenados em segunda instância possam começar a cumprir pena, sem ter que esperar um veredicto definitivo em Cortes superiores. (Folhapress)
