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O ex-governador Sérgio Cabral criticou o seu sucessor Luiz Fernando Pezão e disse que não tem culpa pela crise financeira do Rio de Janeiro

Vice de Cabral (E), Pezão (D) assumiu o cargo em 2014. (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

Preso e condenado em ações penais da Operação Lava-Jato, o ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral (2007-2014) criticou o governo de seu sucessor, Luiz Fernando Pezão, e disse não ter qualquer responsabilidade quanto à crise financeira vivida pelo Estado nos últimos anos.

“Essa crise não é minha”, declarou o peemedebista em interrogatório na 7ª Vara Federal Criminal conduzido pelo juiz Marcelo Bretas, responsável em primeira instância pelas ações da força-tarefa no Rio.

Cabral, que renunciou ao cargo de chefe do Executivo fluminense em abril de 2014, afirmou a Bretas ter deixado o governo “com salários em dia e com “dinheiro no caixa”. Pezão, que era vice de Cabral, vem atrasando os vencimentos de servidores desde o final de 2015 (o décimo-terceiro salário do ano passado, por exemplo, até hoje não foi quitado.

“Infelizmente, esse governo atual foi incapaz de manter o teleférico [do Complexo do Alemão, na zona norte carioca] funcionando” e que, em sua opinião, foi ineficaz ao não garantir uma boa gestão do estádio do Maracanã, reformado ao custo de mais de R$ 1 bilhão para a Copa do Mundo de 2014. Também mencionou os carros das polícias Civil e Militar, que, segundo Cabral, estão “caindo aos pedaços”.

A obra do Maracanã é justamente o objeto da ação penal que demandou a audiência desta terça. O processo apura formação de cartel e fraudes a licitações da reforma do estádio e também das obras de urbanização do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) em grandes favelas do Rio de Janeiro.

De acordo com o MPF (Ministério Público Federal), a empreiteira Delta pagou propina a Cabral e a outros agentes públicos para integrar consórcios que venceram licitações realizadas pelo Executivo fluminense. Foram denunciados à 7ª Vara Federal Criminal (RJ), em 19 de abril deste ano, Cabral, Cavendish, o ex-subsecretário de Obras do Estado Hudson Braga e outras 17 pessoas. Pezão, também do PMDB, não é réu no processo.

Anel

Cabral também relatou que o anel comprado pelo empreiteiro Fernando Cavendish, ex-dono da Delta Construções, foi um “presente de puxa-saco” e que a joia foi devolvida em 2012, três anos depois do aniversário de sua mulher, Adriana Ancelmo.

O ex-chefe do Executivo fluminense disse que Cavendish é um “pobre sujeito desesperado, que vai mudando a sua versão conforme os interesses da acusação e que tem medo de voltar para a cadeia”. Atualmente, Cavendish cumpre prisão domiciliar. “Ele me deu a oportunidade de dizer agora para o senhor que ele é um mentiroso”, disse ele Bretas.

Em tom de revolta, Cabral reconheceu ter recebido o agrado, mas disse que o certame para reforma do estádio só foi realizado um ano após o aniversário da mulher. “A licitação só foi feita em agosto de 2010”, comentou.

Ao ser ouvido na segunda-feira, na mesma ação penal, o empreiteiro, que era amigo próximo do ex-governador, contou que estava em Nice (França), comemorando o aniversário de Adriana Ancelmo com a sua mulher e Cabral, quando o ex-governador o levou a uma loja de joias.

“Estou presenteando a minha esposa e gostaria que você pagasse”, teria dito Cabral, na versão do empresário. O empreiteiro aceitou, pagou pela joia, que custou 220 mil euros (cerca de R$ 846 mil em valores atualizados) e ostentava um diamante de quatro quilates, e ponderou que aquilo precisaria de uma contrapartida.

Meses depois, a sua empresa foi escolhida para entrar no consórcio do Maracanã. “Deixei claro que não era um presente. Acabou sendo um anel de compromisso”, afirmou. “Comprei a joia e, na sequência, acertei o Maracanã. Não foi um presente, foi um negócio”, completou.

O valor da joia, disse o empreiteiro, foi amortizado posteriormente, nos valores das propinas supostamente pagos pela empreiteira ao ex-governador. Ao todo, Cavendish estima ter pagado cerca de R$ 3,5 milhões em propina a Cabral na obra do estádio. O diamante acabou sendo a primeira parcela desse valor.

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