O MDB preparou para o ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles uma infraestrutura completa para que, a partir desta segunda-feira, ele comece a despachar na sede do partido em Brasília, a fim de traçar a linha de ação da pré-campanha com aliados e tentar impulsionar seu nome no eleitorado, caso ele concorra nas eleições deste ano. O que ainda não está decidido.
Depois de manter o suspense até os últimos minutos, Henrique Meirelles confirmou na sexta-feira que estava deixando o Ministério da Fazenda, para respeitar o prazo de descompatibilização, e que ainda avalia a possibilidade de ser candidato à Presidência da República. Em entrevista coletiva à imprensa, Meirelles relatou que comunicou sua decisão de deixar o cargo a Michel Temer, e também indicou o nome do sucessor, o qual foi aprovado pelo presidente da República.
“Hoje encerro um ciclo muito importante da minha vida. Tenho orgulho de ter ajudado o Brasil a sair de crises sérias em dois momentos diferentes [no primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, como presidente do Banco Central, e agora]”, disse Meirelles.
Ele destacou que a atual política econômica tirou o país da pior recessão da sua história e o recolocou na rota do crescimento. “Minha missão na Fazenda foi ajudar o Brasil a crescer e a construir uma sociedade justa e inclusiva”.
Pré-campanha
Caso Meirelles aceite concorrer, a partir desta segunda-feira, a sede do MDB no Lago Sul, em Brasília, vai se transformar no escritório da pré-campanha de Meirelles. No decorrer desta semana, ele já seria colocado como “garoto-propaganda” do lançamento do “Ponte para o Futuro 2”, o programa de campanha do MDB, com o anúncio da continuidade das agendas de reformas que Temer não conseguiu concluir, disse ao jornal Valor Econômico o presidente do MDB, senador Romero Jucá (RR).
O programa está sendo redigido por Meirelles, Jucá e o secretário-geral da Presidência da República, ministro Moreira Franco, que também preside a Fundação Ulysses Guimarães.
O MDB já definiu os palanques dos candidatos a governadores nos Estados, como São Paulo com o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, e aproveitará sua capilaridade com seis governadores e mais de mil prefeitos para lançar 13 pré-candidatos a governador.
Nos Estados, cada líder do MDB tem um candidato, mas há quem acredite que entre Temer e Meirelles é melhor lançar a candidatura do ministro da Fazenda, que teria menos rejeição.
O problema todo é que ele demonstrou, a interlocutores próximos, novas dúvidas sobre a conveniência de deixar o cargo de chefe da equipe econômica, embora sonhe em disputar o posto máximo da República.
Meirelles não gostou do formato da cerimônia de filiação ao MDB. Relatos apontam que havia sido prometido para ele uma cerimônia na qual ele seria o protagonista e, no fim das contas, foi feita uma festa na qual o presidente Michel Temer foi o principal destaque.
A frustração de expectativa no evento ajudou a renovar as dúvidas que têm acometido Meirelles há semanas, embora também haja dúvidas se a colocação dessa incerteza não seria apenas uma maneira de manter holofotes sobre ele até o último momento no governo ou uma estratégia de valorizar seu passe dentro do MDB, que passou por um duro golpe com a prisão dos amigos mais próximos de Temer.
Outro fator que gera preocupações no entorno de Meirelles seria a disputa de bastidor entre o Romero Jucá (RR) Moreira Franco pelos rumos do partido na campanha presidencial. O grupo de Meirelles tem preferência por Jucá nesse embate porque o senador é o maior defensor da candidatura própria do partido e foi quem convidou o ministro a entrar na agremiação.
Há um reconhecimento de que o baixo índice de intenção de votos até agora mostrado pela candidatura Meirelles é um fator que dificulta a decisão do ministro. Além disso, a incerteza sobre se Temer vai mesmo querer encabeçar a chapa presidencial persiste, mesmo após todo o círculo próximo do presidente ter sido alvo da Operação Skala, reforçando a imagem negativa dele.
Um interlocutor ressalta que, embora uma leitura preliminar aponte em maior fragilização da possível candidatura Temer, a lógica palaciana apontaria para a aposta dobrada do presidente, evitando assim ficar na defensiva politicamente.
Em 2010, Meirelles também adiou o quanto pôde sua decisão de deixar o Banco Central para se candidatar como vice de Dilma Rousseff ou ao governo de Goiás. Acabou optando por ficar no comando da autoridade monetária, com algum dano de imagem por ter segurado uma elevação de juros já sinalizada naquele início de ano, e depois não conseguiu se entender com Dilma para continuar no primeiro governo dela.
