Em entrevista exclusiva à CNN Brasil, o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta afirmou que a troca dos segundo e terceiro escalões da pasta da Saúde após sua saída do cargo, em abril, gerou um “voo às escuras” nas ações do ministério.
“Acredito que em algum momento a gente [Brasil] se perdeu. Só de especialidades no ministério tínhamos 50 entidades. O duro é quando você troca o segundo, terceiro escalão e troca o seu aconselhamento, aí o ministério passou a um voo às escuras, não temos mais deles a credibilidade que a gente tinha. Isso é muito ruim, perder a credibilidade e o protagonismo que a pasta deveria ter este momento”, explicou.
E acrescentou: “Quanto à sociedade, vemos a flexibilização de regras quando a metade da população acha inoportuno e outros acham que deveria ter aberto [ o comércio]. Falta critério com ciência e temos pessoas muito boas no Brasil que poderiam nos ajudar a enfrentar muito melhor a pandemia”.
Segundo ele, o ministro da Saúde é apenas porta-voz dessa equipe de técnicos e especialistas, que deveria ser mantida.
Mandetta também afirmou que não é possível aceitar a morte “por desassistência”, que vem acontecendo em diversos Estados do País. “Morrer por desassistência nada mais é do que você confessar que você não consegue atender sua sociedade”, completou, citando o exemplo de Manaus (AM).
Testes e vacinas
Mandetta também avaliou o avanço das medidas de combate à Covid-19 no País. O médico afirmou que, apesar de existirem pesquisas em andamento, não há nenhum método eficiente comprovado.
“Nós temos claramente três avenidas de pesquisa: uma é teste – PCR ou o de anticorpo. Nós não temos uma testagem boa hoje pela ciência. Ainda estamos longe de uma testagem boa e de bancada. A segunda linha é a existência de um medicamento. Estamos fazendo inúmeros testes e nenhum deles demonstra eficácia comprovada. E por último, a vacina e nós temos algumas bem promissoras. A humanidade vai superar tudo isto através da ciência”, acrescentou.
Cloroquina
Em transmissão ao vivo nesta quarta-feira (24), Mandetta chamou de interferência na saúde a defesa do presidente Jair Bolsonaro do uso da cloroquina para tratamento de Covid-19, o que seria um crime durante uma pandemia.
O médico comparou a insistência do presidente no medicamento à suposta tentativa de interferência na Polícia Federal, com a nomeação do diretor-geral da corporação. O ex-ministro participou da live “Cenários e perspectivas para a retomada”, organizada pela Unimed Seguros, ao lado do ex-ministro da Fazenda Eduardo Guardia e do cientista político Fernando Schuler.
“Eu achei interessante. Tiraram ministro da saúde, depois tiraram outro ministro da saúde. O presidente quis um medicamento, ele prescrevendo um medicamento. Aí todo mundo parou e falou: ‘ele estava tendo interferência na nomeação da Polícia Federal. Olha isso é um crime’. Crime é ter interferência, no meio de uma pandemia, na saúde. Vamos ter que ter autonomia do sistema de saúde para ganhar um pouco mais de credibilidade”, afirmou Mandetta, descontraído.
O ex-ministro também afirmou que a cloroquina foi politizada durante a crise do coronavírus, tanto por Bolsonaro como pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. “O presidente politizou não como proposta de saúde, mas como saída para a economia. Eu não torço para ninguém, torço pela ciência. Se comprovar a eficácia, que ela seja utilizada, se não, descartada. Tudo tem quer submetido à crítica”, argumentou.
Mandetta voltou a dizer que a discussão entre preservar a economia e a saúde das pessoas durante a crise é um “falso dilema”, e defendeu que o isolamento ajuda na recuperação econômica.
