O ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot e outras duas autoridades graduadas disseram que os novos encarregados pela PGR (Procuradoria-Geral da República) e pela PF (Polícia Federal) estão restringindo as investigações da Operação Lava-Jato.
Janot, que ocupou o cargo até setembro e segue no Ministério Público Federal, disse à agência de notícias Reuters que o presidente Michel Temer, a quem ele denunciou duas vezes, nomeou o novo diretor da PF especificamente para desviar as investigações.
Separadamente, duas autoridades responsáveis pelo cumprimento da lei, que pediram para não ser identificadas, disseram que Raquel Dodge, a substituta de Janot, instruiu alguns dos principais procuradores federais a se afastarem dos inquéritos sobre corrupção e a pararem de falar publicamente sobre os esforços de combate à corrupção.
“Segóvia veio para cumprir uma missão: de desviar o foco dessa investigação. Ao que me parece, pelas declarações que deu, ele tem a missão de desacreditar as investigações ou as investigações que envolvem essas altas autoridades da República brasileira. E nas investigações ele pode ter o efeito de atrapalhar sim”, disse Janot.
Em comunicado, o Palácio do Planalto disse que o novo chefe da PF foi indicado após consultas com a corporação e criticou qualquer insinuação de que ele poderia atrapalhar as investigações. “Somente alguém mal informado ou mal intencionado poderia supor ser possível interferência nas investigações”, afirma a nota da Secretaria de Comunicação Social da Presidência.
Uma porta-voz de Dodge disse que a nova procuradora-geral está combatendo vigorosamente a corrupção em várias frentes. Fernando Segóvia, o novo diretor-geral da PF, disse em e-mail à Reuters que irá fortalecer a luta contra a corrupção.
“Em todos os meus pronunciamentos sempre deixei claro queremos ampliar e fortalecer a Operação Lava-Jato. Não tenho nenhum tipo de ligação político-partidária com o PMDB ou qualquer outro partido político brasileiro. Meu único compromisso é com o Brasil e com a Polícia Federal”, acrescentou.
As declarações foram feitas à Reuters durante entrevistas sobre mudanças em curso entre funcionários do primeiro escalão da Justiça. Elas ocorrem no momento em que investigadores reagem ao que veem como tentativas do governo de Michel Temer e do Congresso para aniquilar os esforços anticorrupção na esteira das investigações históricas dos últimos anos.
Dodge e Segóvia negaram enfaticamente que os organismos que comandam pararão de investigar a corrupção – e a natureza abrangente de muitos inquéritos, realizados por investigadores em dezenas de escritórios de todo o País, tornaria qualquer esforço combinado de interrompê-los improvável.
Mas a demonstração inédita de descontentamento de Janot e a insatisfação crescente expressada por outras autoridades destacadas da Justiça revelam uma crescente divergência nos níveis mais altos da aplicação da lei, em um momento em que investigadores acreditam que Temer e aliados no Congresso querem anular as investigações. “Está na hora de falar para que tudo não tenha sido em vão”, disse Janot à Reuters.
Esse empenho, que inclui a Lava-Jato e várias outras investigações de larga escala, envolve principalmente a apuração de pagamentos de propinas de empreiteiras a funcionários do governo, políticos e indicados a estatais em troca de contratos de obras públicas e de outros tipos.
