Há momentos na história em que praticamente toda a sociedade se vê imersa em um clima de grande ansiedade que nos devora; e, sem dúvida alguma, os dias próximos à realização de um pleito eleitoral são um desses ditos-cujos. É simplesmente fascinante, como diria o senhor Spock, a forma como ficamos nestes dias — tendo em vista que tais ocasiões mexem com uma gama significativa de interesses (alguns justos, outros mesquinhos), com preocupações (umas razoáveis, outras chegando a raiar a histeria coletiva) e, é claro, bolinam com nossos afetos e desafetos, que já se encontram pra lá de desordenados.
Jorge Amado, em seu romance Os Ásperos Tempos — primeiro volume da trilogia Subterrâneos da Liberdade —, retrata os dias que antecedem o golpe de 1937, que instaurou a ditadura do Estado Novo, e pinta com sua paleta literária alguns lances dos primeiros tempos do novo regime. Mostra-nos a forma como os mais variados estratos sociais, grupos políticos e econômicos percebiam e analisavam aquele momento, cada qual vendo as circunstâncias a partir da sua própria perspectiva. Uns mais ansiosos, outros apáticos, alguns temerosos, outros oportunistas, mas todos com o coração tomado por algum grau de incerteza.
Ao relembrar essas páginas, não temos como não pensar no momento atual que vivemos no Brasil. Tanto à direita quanto à esquerda pairam ares plúmbeos, fomentando no coração de muitos aquilo que Eric Voegelin chamava de fé metastática. Esse trem, segundo Voegelin, nada mais seria que a crença esperançosa em uma transfiguração repentina da estrutura da realidade que daria início à criação de uma nova ordem. Uma ordem perfeita, fofa, cheirosa e paradisíaca. Nesse sentido, todas as ideologias modernas, cada uma à sua maneira, procuram pintar na imaginação dos seus seguidores uma imagem de como a sociedade será ma-ra-vi-lho-sa se eles obtiverem o poder.
Agora, para que essa imagem tenha o peso que os ideólogos desejam na consciência dos indivíduos, frequentemente procura-se pintar com cores intensas e apocalípticas o que, “com toda certeza”, acontecerá se eles não forem cobertos com o manto da vitória — ampliando ainda mais o sentimento de desolação no coração de muitos, tal qual vemos atualmente nesta pátria de chuteiras gastas.
Sim, todas as eleições são importantes e, naturalmente, devido ao contexto histórico, algumas acabam sendo mais importantes que outras. Mas nenhuma — nenhuminha — pode ser encarada como a “eleição final” que antecede ao armagedom, tendo em vista que nenhum de nós, graças ao bom Deus, sabe quais serão os próximos capítulos da jornada humana neste mundo. E, mesmo assim, muitas e muitas vezes agimos como se o momento que atualmente vivemos fosse o derradeiro.
Noves fora zero, para avaliarmos a importância histórica de qualquer acontecimento, é imprescindível que sejamos capazes de nos distanciar dos fatos para que consigamos vê-los em perspectiva e profundidade. Feliz ou infelizmente, é apenas assim que poderemos enxergar com mais clareza a real importância de um determinado fato e identificar, de forma razoável, qual o seu devido lugar dentro da arquitetura de toda a História.
Como bem nos lembra Lucien Febvre, os amantes da história não devem almejar ser os juízes da humanidade. O que cabe a todo aquele que deita suas vistas sobre as páginas envelhecidas da “Mestra da vida” é procurar compreender, com a maior honestidade e sinceridade possíveis, os dramas humanos para, desse modo, podermos ampliar o nosso entendimento a respeito da forma como encaramos o devir humano com suas venturas e desventuras que, bem ou mal, estão muito longe de terminar.
* Dartagnan da Silva Zanela, professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “Nas entranhas do Leviatã”, entre outros livros.
