O presidente argentino, Alberto Fernández, anunciou, na tarde desta quarta-feira (25), que estão suspensas todas as repatriações que o governo havia começado a fazer por conta do cancelamento de voos internacionais comerciais. “Os voos especiais para fazer com que argentinos no exterior regressem estão suspensos. Peço que os que estão fora do país, do país, que esperem. Decidimos não deixar entrar mais gente no país até que nos organizemos. Vamos oferecer ajuda de recursos a quem está no exterior, mas o certo é que terão de esperar para voltar”, afirmou o presidente.
Fernández diz ter orientado a chancelaria argentina a avaliar a situação de pessoas com mais de 65 anos. Eles devem ser estudados “caso a caso”, e a chancelaria pode procurar alternativas para ajudar os idosos a retornar ao país. “O restante terá de esperar”, disse Fernández. Existem mais de 20 mil pedidos de argentinos para voltar ao país. Nos últimos dias, houve confusão em um dos voos especiais para repatriados que chegou à Argentina vindo da Europa. Alguns dos passageiros apresentavam sintomas relacionados à covid-19 e outros ficaram nervosos, chegando a agredir verbalmente as aeromoças. Os pilotos tiveram que pedir calma.
Os fura-quarentena
Também houve confusão nas fronteiras terrestres, porque muitas pessoas decidiram viajar ao exterior durante o feriado nacional da Memória pela Verdade e pela Justiça, nesta terça-feira (24), mesmo com a quarentena obrigatória já em vigor.
Nesta segunda-feira (23), o surfista argentino Federico Llamas, chegou do Brasil por terra, tendo violado a quarentena que o impedia de sair do país. Foi detido e levado para a sua casa no bairro de Flores, em Buenos Aires. Depois, tentou novamente sair de casa, mas acabou preso em uma cadeia no bairro de Ostende. Ele enfrentará ação judicial.
Economia
Quando Alberto Fernández visitou o México em sua primeira viagem ao exterior desde que assumiu a presidência da Argentina, disse que os dois países enfrentariam o “desafio da globalização” juntos.
Menos de cinco meses depois, as respectivas posturas de Fernández e do presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, no combate à pandemia de coronavírus não poderiam ser mais diferentes.
Enquanto só agora o líder mexicano tenha decidido instar os cidadãos a ficar em casa – depois de incentivá-los a comer fora para apoiar a economia local -, a Argentina paralisou a vida social e impôs uma rígida política de quarentena há uma semana, mesmo sob o risco de afetar desproporcionalmente os meios de subsistência da base de eleitores de Fernández, de classe média baixa.
A chave para essa decisão foi a mudança de surto para pandemia e conversas com líderes no centro do combate à doença, disseram pessoas a par da estratégia.
“A escolha é cuidar da economia ou cuidar da vida”, afirmou Fernández na quarta-feira. “Eu escolhi cuidar da vida.”
Na América Latina, onde um grande número de pessoas depende da economia informal para sobreviver, não há boas opções para os líderes. A decisão de Fernández de ir com tudo para combater o Covid-19 se destaca não apenas por seu contraste com o México, mas também com o Brasil, onde o presidente Jair Bolsonaro tem subestimado os riscos e entrado em confronto com governadores que tomam medidas rigorosas para conter a propagação.
“Este é um momento de decisivo para Alberto Fernández mostrar que está no controle e liderando o país”, disse Jimena Blanco, chefe de pesquisa política da América Latina da consultoria Verisk Maplecroft. “O pior cenário é obter uma resposta desordenada, ou nenhuma resposta, que é o que estamos vendo no México e no Brasil.”
A decisão de Fernández de colocar o país em quarentena foi profundamente influenciada pelo anúncio da Organização Mundial da Saúde, em de 11 de março, de que o surto de coronavírus havia se tornado pandemia, segundo uma autoridade do governo. A médica Maureen Birmingham, representante da OMS na Argentina, está em constante contato com autoridades e com o próprio Fernández.
