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O mal da polarização

A polarização, do modo como ela se expressa no Brasil, é um mal, um mal a ser combatido. (Foto: Juca Varella/Agência Brasil)

A polarização, do modo como ela se expressa no Brasil, é um mal, um mal a ser combatido.

Vejam o jornalista Celso Franco de Barros: ele faz, na Folha de São Paulo, uma ginástica comovente para demonstrar que a direita foi mais corrupta do que o governo e o PT, no caso do Banco Master. Ou seja, não é o valor intrínseco da honestidade que vale, mas a quantidade de corrupção que o autor pratica.

Se for pouca, basta dizer que o inimigo é ainda mais corrupto. Nem é preciso mencionar que a direita, o bolsonarismo, fazem raciocínio igual, só que de mãos trocadas.

Mas está aí um aspecto dos mais deploráveis da polarização: se você consegue fazer um powerpoint onde os culpados de corrupção (ou de outros males) estão em maioria no lado do adversário, passa a ser um argumento definitivo.

Se fosse só isso, daria para encarar. Mas a polarização entorta, de forma, contamina todo o debate público. Ninguém aparece para explicar, mas para dissimular e confundir. Então, um apanágio da democracia – a possibilidade do diálogo, do esforço de persuasão pelo argumento, do debate, se perde na rudeza das posições assumidas. Tudo, os fatos mais notórios, o argumento sereno e insofismável, se dilui na gritaria, na ofensa, na depreciação recíproca. Como vencer nossas deficiências, nossos atrasos, nossas mazelas seculares, se não somos capazes de nos entender nem mesmo quanto às questões mais triviais?

Assim, as soluções aventadas, as medidas que poderiam ser implementadas por consenso, são desprezadas – se forem de autoria do adversário. Nada prospera com um mínimo de desprendimento e espírito público, – não é a causa que está em jogo e em discussão, é a marca que ela traz na origem e carrega.

Na campanha se repetem as toadas da estação: se o PT vencer vai legalizar o aborto; se a direita vencer vai acabar com o Bolsa Família.

É um jogo de retranca. Importante é denunciar os erros reais e imaginários do inimigo, impedir que ele avance, não buscar um caminho comum de avanço, que beneficie a comunidade nacional. Não há ninguém a favor de um projeto maior – somente a militância nervosa e mal-humorada de quem é contra.

O lulopetismo e o bolsonarismo, não se mobilizam na busca sincera de soluções duradouras para o país. Ambos têm para si que eles, só eles, detêm as soluções. Nem de longe percebem que o nosso atraso é tão grande, que só “um discurso de conciliação nacional, e uma visão inspiradora do futuro” (P.Parente) é capaz de despertar todas as energias, ora despendidas na luta política inglória.

Não querem um caminho que possa ser trilhado a dois, mas que afaste o outro, expulse-se da comunidade nacional, reduza-o a pó. O que mobiliza, o que está em jogo é o poder, o poder pelo poder.

Deveríamos, ao invés do combate obscuro, eivado de ódio e preconceitos, buscar “uma ambição compartilhada”. Ninguém precisa abrir mãos de seus valores e princípios – transformações duradouras não eliminam os conflitos e as diferenças.

Nesse passo ficaremos cada vez mais para trás. Os “inimigos” se esfalfam na luta, se anulam e paralisam, e a outra parte do país a tudo assiste em desalento, sem alternativa.

* Tito Guarniere (Contato: titoguarniere@terra.com.br)

 

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