Um surto do novo coronavírus deixou 90 alunos infectados na Epcar (Escola Preparatória de Cadetes da Aeronáutica), sediada em Barbacena (MG). O caso é apurado pelo MPF (Ministério Público Federal), que recomendou na última sexta-feira (22) ao diretor de Ensino da Aeronáutica (Direns), major-brigadeiro do Ar Marcos Vinícius Rezende Mrad, e ao comandante da Epcar, brigadeiro do Ar Paulo Ricardo da Silva Mendes, que suspendessem imediatamente todas as aulas e demais atividades acadêmicas presenciais na Epcar e não as retomassem até que sobrevenha alteração substancial do cenário fático relacionado à epidemia da Covid-19, em sintonia com o que for adotado pelos sistemas de ensino federal, estadual e municipal.
Foi recomendado também que os dirigentes da Epcar autorizem todos os alunos que quiserem deixar as dependências dessa organização militar de ensino, abstendo-se de lhes aplicar qualquer espécie de sanção ou penalidade e de submetê-los a qualquer tipo de constrangimento em virtude dessa decisão. O corpo discente da Epcar é composto atualmente por mais de 500 estudantes, a grande maioria deles com menos de 18 anos de idade.
A Epcar iniciou, também na sexta-feira, a liberação dos alunos para férias escolares de três semanas. Antes da dispensa das três turmas, sendo uma por dia, a Escola realizou um cronograma de testagem para a Covid-19 em todos os 507 alunos, inclusive assintomáticos, de forma a possibilitar a liberação segura. Do total de militares testados, 90 alunos tiveram resultado positivo, o que representa 6% do efetivo total da Epcar.
“Desses 90, 83 não apresentavam quaisquer sintomas e os sete restantes apresentam apenas sintomas leves. Nenhum aluno necessitou ser hospitalizado. Todos aqueles que testaram positivo foram direcionados ao isolamento social e receberam o tratamento preconizado pelas autoridades de saúde”, informou a escola.
No último dia 24 de março, o MPF recebeu reclamação de alguns familiares desses alunos, preocupados com a situação de seu aquartelamento “em alojamentos com cerca de 170 pessoas, espaço mínimo entre as camas e banheiro comunitário”. Os pais e responsáveis postulavam a liberação imediata dos estudantes, com a instituição do ensino à distância, pois vários deles já se encontravam gripados, com infecção de garganta e consequentemente com a imunidade baixa” e mantendo contatos com “funcionários e instrutores [que] entram e saem diariamente da escola”.
No dia 15 de abril seguinte, o Conselho Tutelar de Barbacena/MG, revelando a mesma inquietação dos familiares, noticiou que a Epcar mantinha os alunos aquartelados, em espaços coletivos, sem a adoção de quaisquer dos critérios de distanciamento social estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Ministério da Saúde (MS).
Além disso, ainda segundo o Conselho Tutelar, a direção da Epcar teria, em plena pandemia, estimulado e realizado diversas atividades de práticas esportivas coletivas, gincanas e competições, inclusive com a participação de militares do efetivo que estão mantendo contato com pessoas/familiares fora do espaço da escola, expondo os alunos a situações de risco e contaminação.
Questionado, o comandante da Epcar respondeu que a instituição estaria cumprindo as determinações do Ministério da Defesa e do Comando da Aeronáutica e adotando todas as medidas de precaução recomendadas pelos órgãos de saúde.
O Ministério Público Federal, então, requisitou a realização de inspeção nas dependências da Epcar pela Secretaria Municipal de Saúde Pública e pelo Conselho Tutelar de Barbacena (MG), município onde a Epcar está situada.
Realizada no dia 12 de maio, a inspeção acabou constatando a existência de diversas falhas, entre elas, a permanência e livre circulação de alunos, sem qualquer barreira sanitária quando da interação entre eles e os visitantes, familiares, autoridades e militares; ausência de protocolo sanitário para a desinfecção dos ambientes pelos prestadores dos serviços de limpeza; alunos sem máscaras de proteção, em grupo numeroso, deslocando-se para realização de atividades físicas; baixa ventilação nos alojamentos masculino e feminino e nas salas de aula; e, até, ausência de dispenser de sabão líquido, papel toalha e álcool 70 nos alojamentos feminino e masculino e nas salas de aula.
Na ocasião, também foram identificados alguns alunos com sintomas de síndrome gripal, tendo o Conselho Tutelar informado que os profissionais da vigilância sanitária se comprometeram em enviar à escola testes para aplicação nesses alunos.
Uma semana depois, em 19 de maio, a Prefeitura de Barbacena confirmou a ocorrência de dois casos positivos para covid-19 nas dependências da Epcar (uma professora e um aluno).
Mais dois dias, e na quinta-feira, 21 de maio, em contatos telefônicos com a Secretaria Municipal de Saúde e com o próprio comandante da Epcar, o MPF foi informado da existência de um total de sete alunos oficialmente diagnosticados com o novo coronavírus. E então, na última sexta-feira (22), a escola realizou a testagem que confirmou 90 alunos infectados com o novo coronavírus. As informações são da revista Epcar e do MPF.
