O papa Francisco voltou a criticar duramente algumas das maiores autoridades do Vaticano nesta quinta-feira, dizendo que pessoas demitidas por obstruírem suas reformas não deveriam agir como mártires, mas admitir que são “traidoras”.
Pelo quarto ano seguido, Francisco usou sua saudação de Natal à Cúria, a burocracia da Igreja Católica, para dar um sermão nos cardeais, bispos e outros chefes de departamentos reunidos a respeito da necessidade de mudança.
Ele disse que alguns integrantes da Cúria –o centro nervoso da Igreja de 1,2 bilhão de fiéis, a cujos membros cumpre colocar em prática as decisões do pontífice– são parte de “panelinhas e complôs”. Francisco os classificou como “desequilibrados e degenerados” e um “câncer que leva a uma atitude autorreferente”.
Desde que foi eleito como primeiro papa latino-americano em 2013, Francisco vem tentando reformar a Cúria, dominada por italianos, para aproximar a hierarquia católica de seus membros, realizar reformas financeiras e afastar a entidade dos escândalos que marcaram o pontificado de seu antecessor, Bento 16.
Mas ele vem encontrando resistência, especialmente em alguns departamentos que foram fechados, fundidos ou otimizados.
No discurso desta quinta-feira, ele falou sobre os “traidores da confiança” que foram encarregados de realizar as reformas, mas “se deixaram corromper pela ambição e a vanglória”.
Quando são demitidos discretamente, disse, “eles se declaram equivocadamente mártires do sistema… ao invés de fazerem um “mea culpa”. Francisco não deu exemplos específicos.
Dança das cadeiras
Durante o verão, o poderoso cardeal Gerhard Müller não foi renovado à frente da Congregação para a Doutrina da Fé, órgão herdeiro da inquisição e responsável por garantir o dogma.
O cardeal, prefeito por cinco anos, expressou seus desacordos com o papa por sua linha mais flexível para com os fiéis divorciados e casados novamente, o que provocou a ira dos tradicionalistas.
Sua congregação também foi criticada diretamente pela leiga irlandesa Marie Collins, que abandonou a comissão papal de combate à pedofilia, citando uma falta de cooperação “vergonhosa”.
O cardeal Müller, que costuma dar declarações aos jornais, queixou-se do tratamento autoritário do papa. “O papa informou-me em um minuto de sua decisão de não prolongar meu mandato”, disse ele, acrescentando que “não me deu motivos”.
As alfinetadas do papa parecem também ser destinadas ao ex-controlador financeiro do Vaticano, Libero Milone, um contador italiano e laico que acusou a velha guarda da Cúria de demiti-lo para conter os esforços do papa.
O Vaticano, por sua vez, afirmou que Milone foi expulso por ter espionado a privacidade de altos funcionários da Santa Sé.
