O prejuízo de R$ 6,2 bilhões relativo a desvios de conduta e atos de corrupção revelados pela força-tarefa da Operação Lava-Jato e contabilizado pela Petrobras nas demonstrações financeiras de 2014 pode ter sido subdimensionado, de acordo com o presidente da estatal, Roberto Castello Branco. As informações são do jornal Valor Econômico.
“De acordo com o balanço divulgado pela Petrobras em abril de 2015 [relativo a 2014], foi feita uma estimativa de perdas de R$ 6 bilhões. Creio que essa estimativa, por melhor que tenham sido os critérios que orientaram a sua elaboração, não corresponde à realidade”, afirmou o executivo durante evento promovido pela companhia sobre melhores práticas de gestão, realizado na quinta-feira no Rio.
“Existem subestimações nas próprias perdas financeiras. E, por outro lado, elas não consideram atos de gestão equivocados que são cometidos com propósito único de ampliar o universo para a corrupção”, completou.
O presidente da petroleira lembrou que, até o momento, a companhia já recuperou cerca de R$ 4,2 bilhões em recursos devolvidos por infratores, por meio da Lava-Jato. Desse total, R$ 750 milhões foram recuperados somente neste ano, segundo o diretor de governança e conformidade da Petrobras, Marcelo Zenkner.
Assim como seus recentes antecessores, Castello Branco reafirmou que a Petrobras foi vítima de um grupo que se utilizou da companhia para desviar recursos. “Durante aproximadamente 15 anos, [a Petrobras] foi vítima de uma organização criminosa que a saqueou”, afirmou.
Como exemplo de atos irregulares, Castello Branco citou os US$ 15 bilhões destinados ao projeto do complexo petroquímico do Comperj, em Itaboraí, região metropolitana do Rio, e que, até hoje, não saiu do papel. “Quinze bilhões de dólares jogados fora no Comperj, é um verdadeiro cemitério da corrupção”, frisou. Procurada, a Petrobras informou que não detalha o investimento no Comperj.
O executivo também fez referência às obras do escritório da empresa na Bahia, o “Torre Pituba”, onde se gastou “extraordinariamente mais de R$ 2 bilhões para a construção de um templo da corrupção superdimensionado”.
Sobre a refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, Castello Branco disse que é “a refinaria mais cara do mundo” e destacou que foram gastos US$ 20 bilhões na refinaria, “com menor capacidade que o esperado”. Ele acrescentou que o investimento feito na unidade jamais será recuperado. “Por maior que seja o preço do petróleo.”
Sobre a atuação na área de conformidade, Zenkner disse que, neste ano, foram aplicados R$ 6,4 milhões em multas a fornecedores, no âmbito da Lei Anticorrupção. Segundo ele, em 2019, foram instaurados onze processos do tipo, dos quais seis foram concluídos.
De acordo com o diretor, as sanções não são relativas necessariamente a atos de corrupção. “A Lei Anticorrupção traz uma série de atos lesivos. Por exemplo, uma empresa é contratada pela Petrobras e, no momento em que ela vai apresentar documentação para receber uma medição de um contrato, ela apresenta um documento falso. A Petrobras, detectando isso nos seus controles internos, vai abrir um processo contra essa empresa e vai aplicar a ela alguma sanção”, explicou.
Castello Branco ainda pediu desculpas aos cerca de 2 mil funcionários da empresa que participaram de procedimentos investigatórios desde 2015. A estatal ressaltou que eles não foram necessariamente investigados, mas podem ter sido, por exemplo, ouvidos como testemunhas. Agora, estão recebendo cartas com o “feedback” das investigações de que participaram. “Aproveito a oportunidade para pedir desculpa pessoalmente a todos aqueles que foram injustiçados e seus familiares”, disse o presidente.
