Durante um encontro com integrantes do Plano Nacional de Parto Humanizado e Aleitamento Materno, o presidente Nicolás Maduro exortou todas as venezuelanas a terem filhos. A declaração ocorre quando a Venezuela enfrenta uma grave crise econômica que levou cerca de 4 milhões de pessoas a deixarem o país.
— A parir então, a parir! Todas as mulheres, a terem seis filhos! Todas! Que a pátria cresça — disse Maduro em cadeia nacional.
O presidente venezuelano fez o comentário quando felicitava uma das grávidas que participa do Plano de Parto Humanizado e que espera seu sexto filho. O programa inclui círculos de apoio para as gestantes. Durante o evento, Maduro também destacou o valor da mulher por trazer crianças ao mundo e disse que o mais importante no país eram as grávidas. Ele pediu à mídia que ajudasse na divulgação do programa.
— Disse umas mil vezes para que esses cursos sejam convertidos em programas de TV e de redes sociais de acesso maciço para as famílias — afirmou.
O país enfrenta uma profunda crise econômica que resultou na escassez de alimentos e de remédios. Entre 2013 e 2018, 13% das crianças venezuelanas apresentaram desnutrição, segundo o Unicef. Um em cada três venezuelanos tem dificuldades em obter comida suficiente, de acordo com o Programa Mundial de Alimentos.
A Venezuela enfrenta ainda uma crise política. O líder opositor Juan Guaidó é considerado o presidente interino por mais de 50 países, incluindo o Brasil, mas Maduro permanece no poder.
— Que Deus a abençoe por trazer à vida seis pequenas meninas e meninos — disse Maduro à gestante. — Toda mulher deveria ter seis filhos pelo bem do país.
Empresariado
Enquanto a economia da Venezuela se afundava em 2017, um nome se destacava: Lorenzo Mendoza. Sua família é conhecida em todo o país. A Empresas Polar, um conglomerado fundado pelo avô de Mendoza, se tornou a maior companhia privada do país. Em meio à desastrosa política econômica de Maduro, que levou à escassez de alimentos e à crise de refugiados, Mendoza emergiu como crítico feroz do governo e de sua perseguição ao setor privado.
Polido e eloquente, Mendoza contrastava com o rude presidente. Sua popularidade chegou a tal ponto que pesquisas sugeriam que ele derrotaria Maduro, caso se candidatasse à Presidência. Então, subitamente, Mendoza parou de fazer aparições públicas, e Maduro deixou de chamá-lo de “ladrão”, “parasita” e “traidor”. O governo interrompeu a onda de ataques contra a Polar e começou a adotar medidas econômicas que Mendoza havia proposto, como parar de controlar preços.
A história por trás da trégua entre Mendoza e Maduro, selada num encontro em meados de 2018, é também a da aproximação entre o governo da Venezuela e a classe empresarial, em conflito de quase duas décadas.
A trégua simboliza também a recente transformação da Venezuela de um país onde o governo controlava totalmente a economia para um lugar dominado por um regime ansioso para permitir o capitalismo para evitar o colapso e se manter no poder.
A surpreendente reviravolta está longe de resolver os profundos problemas econômicos da Venezuela. Mas encorajou alguns investimentos e tem permitido a Maduro sobreviver em meio a sanções americanas e ao isolamento internacional. Para os empresários, significa poder voltar a operar.
— Estamos numa situação econômica muito ruim, mas há algum otimismo — diz Ricardo Cusanno, diretor da maior associação industrial da Venezuela, a Fedecámaras.
Sem alarde, o governo tem devolvido para a iniciativa privada dezenas de companhias que haviam sido desapropriadas. O mesmo acontece com terras desapropriadas por Hugo Chávez. Incursões contra empresas privadas foram substituídas por reuniões cordiais entre ministros e empresários.
