Joe Biden não é uma pessoa vingativa e não irá descontar no relacionamento bilateral com o Brasil as declarações feitas pelo presidente Jair Bolsonaro durante a campanha, acredita o democrata Albio Sires. O deputado americano é presidente da Subcomissão de Hemisfério Ocidental da Comissão de Relações Exteriores, onde são tratados os temas relativos a Brasil. Em entrevista ao portal O Globo, o congressista afirmou que não há razão para Brasil e Estados Unidos serem inimigos, mas a boa vontade não pode vir só do governo americano: Bolsonaro também terá que ceder.
1-O governo brasileiro torceu pela eleição do ex-presidente Donald Trump e demorou mais tempo para reconhecer a vitória dos democratas. Os EUA serão um inimigo do Brasil a partir agora?
Por que seríamos inimigos? O Brasil é uma grande potência econômica, temos muito trabalho na área econômica, só porque aqueles dois tiveram uma boa relação pessoal, isso não quer dizer que o país todo tem que sofrer. Não estou tentando ter uma relação pessoal com o Brasil, quero tentar ter um relacionamento melhor com o país, continuar com as nossas trocas, ir adiante. O que faz os EUA melhores faz também o Brasil melhor.
2-O sentimento no Brasil depois da eleição de Biden é que o relacionamento bilateral estaria fadado ao fracasso por o presidente Trump não ter sido reeleito. O relacionamento está fadado a ficar ruim?
O presidente Biden não é vingativo. Ele está na estrada há muito tempo, já trabalhou com muitos líderes. Tenho certeza de que ele sabe que o relacionamento que o Brasil teve com Trump foi sobretudo por meio da Presidência. Ele vai querer melhorar o relacionamento, continuar a trabalhar com o Brasil, engajar o Brasil, ainda que, obviamente, há coisas que são importantes para nós, como direitos humanos e desmatamento. Mas não acho que a relação vá azedar por causa disso.
3-Congressistas apresentaram uma série de medidas para combater o desmatamento no Brasil desde 2019, inclusive tentando barrar a importação de produtos brasileiros. Isso tem chance de ir adiante?
É cedo para dizer. Todos estão se reorganizando ainda. Mas tenho certeza de que, se essa hora chegar, o presidente Biden procurará o Brasil e dirá: “Olhe, temos esta situação, como podemos resolver?”. Tenho confiança de que haverá conversas. Mas, claro, o Brasil tem que ceder um pouco também, não pode ser só de um lado.
4-Alguns acadêmicos e congressistas da ala progressista (esquerda) do Partido Democrata já deixaram claro que estão dispostos a tomar medidas de punição contra o Brasil, como não apoiar a entrada do Brasil na OCDE ou barrar a negociação de um acordo de comércio. Esta é a visão do Partido Democrata?
As pessoas acham que o Partido Democrata é o Partido Progressista. Há progressistas no nosso partido, e há pessoas no nosso partido que não são progressistas. Eles podem apresentar coisas, mas é preciso esperar para ver se o resto do partido vai aceitar essas coisas. Apresentar um projeto não quer dizer que vai virar lei. Acredito que as coisas podem ser negociadas. Acredito que este presidente é do tipo que acredita em negociações.
5-Biden disse durante a campanha que quer criar um fundo para a Amazônia. Qual estratégia o senhor acha que vai prevalecer: cooperar por meio de financiamento para o não desmatamento ou punição?
Não sei qual vai prevalecer, mas acho que é uma grande ideia se você puder trazer dinheiro para preservar a floresta, acho que ajudaria os dois países. É uma boa política.
6-Quais deveriam ser as prioridades do governo para o Brasil e a América Latina?
Eu não represento o Departamento de Estado, mas acho que eles tentarão entrar em contato e ter um relacionamento melhor com o Brasil do que tiveram no passado. Mas acho também que o presidente do Brasil tem que se dar conta de que não tem mais Trump aqui nos EUA. Então tudo depende do Brasil também. Não é uma via de mão única.
7-A embaixada fez este em contato com o senhor desde que Bolsonaro assumiu o poder?
Sim, falamos com as pessoas, com a embaixada, de tempos em tempos, eles ligam para nós por diferentes questões. Às vezes, você tem um relacionamento entre os presidentes, mas abaixo, as pessoas estão trabalhando juntas em outros temas. Eles já procuraram nossos escritórios.
8-Poderia haver cooperação entre Brasil e EUA no combate ao coronavírus?
Não só no Brasil, mas também na Venezuela e no resto do Hemisfério Ocidental, o coronavírus parece estar descontrolado. É do interesse dos EUA fazer com que esteja sob controle por causa das conexões que temos com o hemisfério. Eu vou promover isso na nossa comissão, porque acredito que, se controlar isso, o vírus, isso só pode ajudar os EUA.
9-De que maneira isso poderia ser feito?
Poderia ser com a vacina. A produção da vacina está bem alta aqui nos EUA, logo teremos mais de cem milhões vacinados, e haverá países que eu sei que querem a vacina.
10-Os EUA poderiam ajudar o Brasil a conseguir mais vacina?
Sim. Mas o presidente tem que dar a vacina ao povo. Não pode sair por aí dizendo que não vai tomar a vacina. É uma situação em que os líderes, o presidente, tem que ter um coração maior do que ele tem.
