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O próximo ano deve começar com dúvidas sobre a permanência de um aliado do ministro Sérgio Moro no comando da Polícia Federal

Valeixo foi superintendente da PF no Paraná durante a Lava-Jato. (Foto: EBC)

Causada pela tentativa de interferência do presidente Jair Bolsonaro, a crise institucional na PF (Polícia Federal) já é tratada como um assunto superado dentro da própria corporação. Ainda assim, 2020 deve começar com dúvidas sobre a permanência de Maurício Valeixo, aliado do ministro Sérgio Moro (Justiça e Segurança Pública), no cargo de diretor-geral.

De acordo com interlocutores da cúpula da PF, não há sinal de que Valeixo será substituído em breve, mas o discurso entre servidores de diferentes escalões do órgão é o de que uma eventual troca no comando da PF agora não seria mais um evento “traumático”.

O grupo que aposta que o diretor-geral está firme no cargo conta, por exemplo, que Valeixo nomeou recentemente três superintendentes — algo que não supostamente aconteceria caso ele estivesse de saída, já que as indicações precisam passar pelo aval da Casa Civil da Presidência da República.

Um deles foi justamente Carlos Henrique Oliveira de Sousa, pivô da crise com Bolsonaro, que tomou posse como superintendente da PF no Rio de Janeiro, no dia 10. Em agosto, Bolsonaro havia atropelado a PF ao anunciar que o então chefe da superintendência fluminense, Ricardo Saad, seria substituído, por questões de “gestão e produtividade” e que gostaria de ver no cargo o superintendente da corporação no Amazonas, Alexandre Saraiva.

Valeixo então reagiu e, por meio de nota, apontou que quem iria para o cargo era Sousa, que estava alocado em Pernambuco. Bolsonaro também mandou o seu recado, dizendo que poderia, quando quisesse, trocar o diretor-geral.

A movimentação do presidente para emplacar um nome de sua confiança em seu reduto eleitoral fez Valeixo ameaçar deixar o cargo. Na época, colocou-se em dúvida inclusive se Moro continuaria ministro se visse mais um aliado seu ser defenestrado.

No meio político, a leitura que se fez foi a de que os ataques à PF miravam Moro, cuja relação com o presidente estava abalada. Aliados do presidente, no entanto, atuaram para convencer Bolsonaro de que romper com o seu ministro mais popular, considerado um dos símbolos do combate à corrupção do Brasil, não seria uma boa ideia.

A crise refluiu a partir de setembro, depois das férias de Valeixo — apostava-se que ele nem voltaria para o cargo. Hoje, quem convive com o diretor-geral tem dito que ele anda “muito bem-humorado” e que o último encontro com Bolsonaro, no início de novembro, ocorreu sob um “clima amistoso”.

“Saída honrosa”

Há, no entanto, quem aponte que uma “saída honrosa” já esteja sendo costurada pelo DG — como o cargo de diretor-geral é chamado dentro do órgão. O posto de adido em Portugal ficará vago entre março e abril e o envio de Valeixo para ocupá-lo é visto como algo natural.

Apesar dos percalços, a corporação termina o ano apontando avanços na gestão Valeixo-Moro. O principal deles foi a autorização da contratação de 1,2 mil novos policiais federais, 500 deles já neste ano. Também afirmam que houve aumento no combate ao crime organizado, com recordes em apreensão de drogas e, principalmente, na descapitalização dos grupos que atuam no tráfico.

O Ministério da Justiça também já sinalizou que deve sair nos próximos meses o plano de carreira para a PF. A cobrança aumentou após a PRF (Polícia Rodoviária Federal) conseguir a reestruturação de cargos de chefia para a corporação, o que fez com que as entidades de classe da PF reagissem e criticassem a falta de tratamento isonômico.

Em outubro, a ADPF (Associação dos Delegados da Polícia Federal) entregou uma carta a Valeixo afirmando que, apesar da expectativa com a chegada de Moro ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, a PF estava “relegada a segundo plano”.

Presidente da ADPF, Edvandir Paiva aponta ainda outras questões que estão na pauta de reivindicação da categoria, como o aumento das diárias para agentes que precisam se deslocar para fazer operações.

“Se no ano que vem não tivermos perspectiva, vou chamar os delegados em uma assembleia para a gente decidir o que fazer, já nos primeiros meses do ano”, adiantou. “Como vamos fazer para ver as pautas da PF encaminhadas? Espero que não precise, mas, se for necessário, é assim que o movimento classista trabalha.”

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