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O que explica a volta do cigarro como elemento de estilo

Por décadas, campanhas de saúde pública trabalharam para desconstruir a associação entre cigarro e glamour. (Foto: Freepik)

Por décadas, campanhas de saúde pública trabalharam para desconstruir a associação entre cigarro e glamour. A imagem do maço entre os dedos de uma atriz, do fumante misterioso no cinema ou da modelo posando com fumaça ao redor foi substituída por outra, ligada aos efeitos da nicotina e aos riscos do tabagismo. Agora, porém, o cigarro volta a aparecer em fotografias de moda, videoclipes e produções com celebridades. Não necessariamente como hábito, mas como parte da imagem.

Nas redes sociais, a chamada “smoking aesthetic” reúne referências que passam por termos como “cigarette girl”, “smoke pose” e “fumar performático”. A proposta não significa que todas as personalidades que aparecem fumando sejam, de fato, fumantes. O que chama atenção é a maneira como o objeto é incorporado à composição, geralmente associado a referências retrô, sensualidade e uma certa ideia de transgressão.

Nos últimos meses, algumas imagens ajudaram a alimentar essa percepção. Em março, Kylie Jenner apareceu acendendo um cigarro na capa da “Vanity Fair”. No mês seguinte, Hailey Bieber posou fumando para a “Interview Magazine”. Dua Lipa também publicou uma fotografia com um cigarro e a frase “anyone got a light?”. No universo da moda, marcas como Khaite e Dôen chegaram a distribuir maços personalizados em eventos, segundo reportagens internacionais sobre o fenômeno.

Na música, Charli XCX levou a referência para o videoclipe de “Rock Music”, no qual aparece fumando vários cigarros ao mesmo tempo. A cantora também é embaixadora da YSL Beauty, mas a parceria não significa que a marca esteja promovendo produtos de tabaco.

No Brasil, Anitta também usou o cigarro como elemento de linguagem visual. No videoclipe de “Desgraça”, faixa do álbum Equilibrium, lançado em abril, a cantora aparece fumando durante a representação de uma entidade ligada à sua espiritualidade. Depois que fãs questionaram se havia começado a fumar, ela afirmou ter “pavor” do hábito e explicou que a cena fazia parte da construção da personagem.

O contexto é importante porque ajuda a diferenciar o uso do cigarro como recurso artístico de uma declaração sobre hábitos pessoais. Ainda assim, a repetição dessas imagens aponta para um movimento cultural que vai além de uma fotografia ou de um videoclipe.

– Do clean girl ao cigarette girl: A estética surge em um momento curioso. De um lado, nunca houve tanta valorização de exercício físico, alimentação equilibrada, skincare, longevidade e bem-estar. De outro, imagens associadas ao excesso, à noite e a comportamentos considerados pouco saudáveis voltam a despertar interesse.

O movimento também se aproxima da retomada do indie sleaze, estética marcada pela nostalgia dos anos 2000, com maquiagem borrada, festas, fotografias com flash e uma aparência propositalmente menos produzida. Dentro desse imaginário, o cigarro funciona como um elemento visual capaz de sugerir despreocupação, rebeldia ou uma espécie de imperfeição calculada.

Existe, porém, uma diferença importante entre recuperar uma referência estética e recuperar o significado associado a ela. Quando um produto ligado à dependência e a doenças aparece repetidamente em contextos de moda e entretenimento, a imagem pode acabar se sobrepondo à percepção de risco, principalmente entre os mais jovens.

Para o pneumologista Marcelo Ceneviva Macchione, essa associação merece atenção. “Quando o cigarro aparece associado a pessoas admiradas, moda, música ou determinado estilo de vida, existe o risco de que principalmente os mais jovens enxerguem primeiro a imagem e não as consequências. Independentemente da estética construída ao redor dele, estamos falando de um produto que causa dependência e expõe o organismo a substâncias prejudiciais”, explica.

– A nicotina ganhou novas formas: A volta do cigarro convencional às imagens da cultura pop acontece depois de uma mudança na própria aparência do consumo de nicotina. Antes disso, os cigarros eletrônicos já haviam criado uma representação diferente do hábito, especialmente entre públicos mais jovens.

Pequenos, coloridos e vendidos em diferentes formatos e aromas, os vapes se distanciaram visualmente do maço tradicional e ajudaram a apresentar o consumo de nicotina de uma maneira menos associada ao cigarro convencional.

A aparência, no entanto, não elimina os riscos. “É importante entender que o usuário não está simplesmente inalando vapor de água. O aerossol produzido pelo dispositivo pode conter nicotina, partículas ultrafinas, aromatizantes e outras substâncias. A exposição repetida pode irritar e inflamar as vias respiratórias”, afirma Marcelo.

Tosse, chiado, falta de ar e irritação das vias aéreas podem estar associados ao uso. A atenção deve ser ainda maior entre pessoas que já apresentam problemas respiratórios.

Para o especialista, a diferença visual entre os produtos não deve ser confundida com uma diferença equivalente em segurança.

“O fato de um produto ter características diferentes do cigarro convencional não significa que seja seguro. Além dos possíveis efeitos sobre o sistema respiratório, muitos cigarros eletrônicos contêm nicotina, uma substância com potencial de causar dependência”, diz.

– Quando o cigarro volta a ser um acessório: É justamente a transformação do cigarro em elemento de composição que chama atenção. Uma coisa é uma celebridade ser fotografada fumando em um momento cotidiano. Outra é o objeto aparecer deliberadamente enquadrado, estilizado e integrado à narrativa de uma campanha, de um ensaio ou de um videoclipe.

A diferença pode parecer sutil, mas altera a maneira como o hábito é apresentado. Em vez de algo associado a dependência ou consequências para a saúde, o cigarro pode passar a funcionar como parte de uma personagem ou de determinado estilo.

O impacto dessa representação preocupa especialmente quando chega a adolescentes. “Quanto mais cedo começa o contato com a nicotina, maior é a preocupação com a instalação da dependência e com a manutenção do comportamento ao longo do tempo. Por isso, prevenção e informação são fundamentais”, destaca Marcelo. As informações são do jornal O Globo.

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