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O silêncio de Pilatos

No mundo atual, há uma grande valorização daquilo que se convencionou chamar de “opinião própria”; e, se esta for qualificada como sendo uma “opinião crítica”, aí a sua cotação vai para as alturas. Porém, como muitas outras coisas que abundam no mundo contemporâneo, essa supervalorização da posse de uma “opinião” é apenas mais um trem fuçado de valor duvidoso. Só isso, e olhe lá.

Pessoalmente falando, não dou importância nenhuma para a opinião de ninguém, muito menos para as minhas, pois toda opinião é apenas uma impressão imprecisa a respeito de algo ou de alguém e, como tal, é apenas uma geringonça de pouca valia. De mais a mais, se tivermos nossas vistas invadidas pela luz de uma verdade, o que faremos? Ficaremos agarrados à nossa opinião criticamente furada ou a deixaremos de lado para abraçar a verdade que nos foi revelada por uma determinada circunstância da vida? Bem, foi o que eu imaginei.

Infelizmente, tratamos as nossas opiniões como se fossem bichinhos de estimação e, ao fazermos isso, terminamos por colocá-las muito acima da verdade. Agindo deste modo, sem nos darmos conta, acabamos nos colocando no lugar de Deus, posando, em nossa vida, como se fôssemos Bruce Nolan, personagem interpretado por Jim Carrey no filme Todo Poderoso (2003) — figura que, por algum tempo, passa a ocupar o lugar de Deus e, ocupando o lugar do Altíssimo, terminou metendo os pés pelas mãos.

Aliás, falando em “todo poderoso”, lembremos da Sexta-Feira Santa, onde vemos a multidão clamar, em alto e bom som, pela libertação de Barrabás e, na sequência, bradar a plenos pulmões para que o Nazareno fosse crucificado. Aí temos a multidão colocando-se acima de Deus, crendo que a sua opinião sobre tudo era superior à Verdade que se fez carne e que estava diante de suas vistas. Resumindo: um bando de “todos-poderosos” colocando-se acima do bem e do mal, condenando o Sumo Bem como se fosse todo o mal.

E assim somos nós, muitas e muitas vezes, em nosso dia a dia, em nossas decisões comezinhas e escolhas mesquinhas. Se somos daqueles que creem que tudo é relativo, é bem provável que, por conta disso — e sem nos darmos conta — terminemos por agir como se as nossas opiniões fossem incontestáveis. Não é à toa, nem por acaso, que tantas pessoas promovam campanhas de cancelamento aqui e acolá e, ainda por cima, sejam capazes de posar como baluartes da democracia; afinal, se tudo é relativo, apenas o nosso ego narcisicamente inchado é absoluto, não é mesmo?

Por essas e outras a verdade é tão levianamente assassinada por nós; por essas e outras trocamos tão facilmente de opinião sem ao menos refletir, um cadinho que seja, a respeito do que estamos fazendo.

Mas, afinal de contas, o que é a verdade? Bem, essa é a pergunta que foi feita por Pilatos ao Verbo Divino encarnado, estando com o seu coração dividido entre a pressão da opinião da turba, a ordem do Império Romano e a sua vaidade. E, mesmo tendo a Verdade diante de suas ventas, ele foi incapaz de reconhecê-la e, por isso, acabou lavando as mãos do sangue inocente que foi derramado.

Há quem diga que ele passou o resto de sua vida lavando compulsivamente as mãos, dizendo que elas estavam, o tempo todo, sujas de sangue.

Enfim, que tenhamos a coragem que Pilatos não teve; que tenhamos a humildade que as multidões não têm e, principalmente, a fortaleza necessária para abandonarmos as nossas opiniões quando estas forem silenciosamente tratoradas pela verdade — para que nossa mente e coração sejam iluminados por ela, renovando o nosso olhar e fazendo nova toda a nossa vida.

(Dartagnan da Silva Zanela, professor e autor de “A Quadratura do Círculo Vicioso”, entre outros livros)

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