O presidente da Argentina, Mauricio Macri, foi pessoalmente à sede do Ministério da Defesa, localizada a poucos metros da Casa Rosada, para informar-se sobre a situação do submarino ARA San Juan — desaparecido desde quarta-feira da semana passada. O gesto do chefe de Estado evidenciou a profunda crise militar desencadeada pelo que já se considera a maior tragédia da Marinha argentina dos últimos 35 anos. Em meio ao desespero e à ira dos familiares dos 44 tripulantes, Macri mostra-se profundamente irritado com a atuação das autoridades militares e, no país, especula-se sobre mudanças na cúpula das Forças Armadas até o final do ano. Na opinião de especialistas, o submarino é apenas a ponta do iceberg, e trocar cabeças não resolverá um problema que se arrasta há décadas: a indefinição sobre qual deve ser o papel das Forças Armadas, hoje abandonadas, com cada vez menos recursos e sem rumo.
Ao sair do Ministério da Defesa, o presidente evitou críticas à Marinha e tentou acalmar as famílias dos tripulantes, que já falam em pedir justiça: “Não temos de nos aventurar em buscar culpados”.
No entanto, longe dos holofotes, o governo já abriu 40 investigações internas para determinar o que aconteceu com o submarino. Negligência e ocultação de informação estão entre as hipóteses. “Macri está zangado com a situação. Sempre nos sentimos um pouco impotentes com uma situação como esta, onde ninguém sabe o que aconteceu”, declarou o senador Federico Pinedo, líder da aliança governista Mudemos no Parlamento e terceiro na linha de sucessão presidencial.
Pinedo questionou “a política antimilitar dos governos kirchneristas” e defendeu a necessidade de repensar a missão das Forças Armadas.
“A política deve ocupar-se de pensar para que servem as Forças Armadas no século XXI e deve equipá-las para essa missão, que devemos definir”, assegurou o senador, um dos congressistas mais próximos do presidente.
Visivelmente abalado pela crise, Macri comprometeu-se a continuar procurando o submarino, com a ajuda de 12 países, entre eles Estados Unidos, Brasil, Espanha e Rússia, última a unir-se às operações de busca. Até sexta-feira, as informações técnicas divulgadas pela Marinha continuavam sendo as mesmas do dia anterior: a confirmação de uma explosão na região em que o San Juan está sendo procurado, muito próxima do local onde estava quando comunicou-se pela última vez com terra. Mas, pela primeira vez, o porta-voz da Marinha, Enrique Balbi, admitiu que a explosão confirmada no dia anterior teria sido no San Juan. “Inferimos que poderia ser do submarino”, afirmou. “Não temos indícios de um ataque.”
O que causou a explosão continua sendo um grande mistério, assim como o que fazia o submarino. A informação oficial menciona trabalhos de monitoramento de barcos pesqueiros, mas a juíza que está investigando o caso assegurou que “são segredos de Estado”. A equipe de promotores encarregada do caso solicitou sexta-feira informações sobre as reformas realizadas durante o governo de Cristina Kirchner (2007-2015).
Paralelamente, setores da oposição estão pedindo ao ministro da Defesa, Oscar Aguad, que vá ao Congresso dar explicações.
“No Parlamento, temos de fazer todos os esforços necessários para que este caso não seja catalogado como uma tragédia derivada de um acidente, são fatos de extrema gravidade”, disse a deputada opositora Araceli Ferreyra.
