Outubro está chegando e um número considerável de eleitores ainda não sabe em quem vai votar para presidente. E não estou falando desse contingente imenso de cidadãos aptos a votar, mas que não se detêm para fazer a escolha mais cuidadosa, a que mais pode oferecer, e principalmente a que mais pode entregar, como se diz hoje em dia. Não estou me referindo à legião dos desatentos.
Me ocupo de eleitores que têm certa consciência do valor de sua escolha, e que acompanham de perto a política, nem tanto porque gostam, mas porque sabem que da escolha depende parte do seu próprio futuro e o do país. Eleitores conscientes, não movidos pelo vírus do antagonismo selvagem, da polarização que nos apequena e paralisa.
Estes, olham a nominata de candidatos e nenhum deles lhes apetece, lhes agrada. Têm boas razões para não votar em Lula ou Bolsonaro, são órfãos de uma candidatura que não tragam consigo a marca desse conflito estéril, e que sejam capazes de se apresentar sem resvalar em vinculações com o passado recente – lulopetismo e bolsonarismo – e sem o salvacionismo dos arrivistas, dos recém-chegados, que tudo sabem e que tem no bolso do colete a chave para resolver todos os nossos gargalos.
Lula e Bolsonaro fora, poderiam ser Zema e Caiado. Mas no caso é imediata a regressão: estamos falando de bolsonarismo sem Bolsonaro. Ambos cantam as glórias de seus governos em Minas e Goiás, mas todos nós estamos um pouco curtidos com tais personagens. Não há nada mais fácil – e às vezes nem mais falso – do que relacionar as suas grandes conquistas, os seus grandes avanços, as grandes obras nos respetivos territórios.
E a “novidade” Renan Santos? Fala fácil, com desenvoltura, mas só prometer a bomba atômica para o Brasil, já bastaria para ver que há, ali, um parafuso frouxo. Pablo Marçal fez escola. Sobra retórica, falta experiência administrativa, falta compromisso com a institucionalidade democrática.
Tem Augusto Cury. A ver mais um pouco, a conferir. A primeira impressão é a de que seria engolido no cargo em uma semana pelas engrenagens implacáveis de Brasília.
Abstenção? Mas há a eleição de governador, deputados estaduais, federais, senador. Deve ter, na miríade de candidatos, um ou dois que mereçam o deslocamento até as seções eleitorais.
Voto nulo? O voto com cédulas era melhor para expressar a ira do cidadão: dava para escrever uns desaforos. Não era errado. O eleitor tem o direito de escolher candidato e o direito de achar que nada mais presta. Há boas razões para quem pensa assim.
O voto pode ser anulado digitando “00” na máquina. Mas não fica clara a razão, os eleitores mal sabem dessa alternativa.
E o voto branco? Eis aí um bom caminho. Primeiro, porque ele também se constitui numa forma de voto nulo. Segundo, porque votos em branco podem traduzir uma sensação de quem não soube apertar aqueles botões. Mas também pode ser lido como um sentimento, uma irresignação, um protesto contra o estado de coisas em geral. E isso é tão legítimo quanto sufragar um nome.
Não que resolva qualquer coisa. Mas pode-se partir do pressuposto que cravando o número de um candidato, também não vai resolver.
* Tito Guarniere (titoguarniere@terra.com.br)
