Depoimentos de dois decoradores que trabalharam para o ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral e a ex-primeira-dama Adriana Ancelmo aprofundaram as provas colhidas de que o casal usava o dinheiro da propina para bancar a vida luxuosa.
Ana Lúcia Jucá Moreira Dias, que executou sete projetos em imóveis ligados ao casal, admitiu que recebia a remuneração pela contabilidade paralela gerida por Luiz Carlos Bezerra, homem de confiança e um dos operadores de Cabral, que se encontra preso no Complexo de Bangu. Outro decorador, Roberto Cláudio Oliveira Figueiredo, dono da Ouriço Design e Decoração de Interiores, disse que recebia depósitos de origem desconhecida em sua conta bancária.
Esposa do ex-secretário municipal de Urbanismo Sérgio Dias (gestão de Eduardo Paes), a arquiteta Ana Jucá disse que começou a trabalhar para Sérgio Cabral em 2003, na reforma do apartamento onde o casal mora na rua Aristides Espínola, no Leblon, na Zona Sul do Rio.
Desde então, desenvolveu mais seis projetos: na primeira casa de Cabral no condomínio Portobello (Mangaratiba), em 2004; em nova reforma do apartamento da rua Aristides Espínola; na segunda casa no condomínio Portobello, em 2011; no escritório profissional de Adriana Ancelmo, no Centro do Rio, em 2013; no apartamento da ex-primeira na rua Prudente de Morais (Ipanema), em 2014; e no escritório profissional de Cabral na avenida Ataulfo de Paiva (Leblon).
Indagada sobre a forma de remuneração, Ana disse que, no primeiro projeto, cobrou um valor fixo de R$ 10 mil e mais uma espécie de prêmio pago pelas lojas fornecedoras dos materiais, denominado “reserva técnica”. A arquiteta afirmou que não cobrou pelos demais projetos, “já que era remunerada pelas ‘reservas técnicas’ e tinha interesse em manter os clientes, uma vez que os projetos funcionavam como propaganda do trabalho em razão do prestígio do casal”.
Os investigadores, no entanto, apuraram um total de repasses de R$ 560 mil, com base na quebra do sigilo dos e-mails do operador Luiz Carlos Bezerra. Parte deste valor, admitiu a arquiteta, foi usado para pagar as lojas. Apresentada a alguns destes e-mails, Ana informou que não lembra dos valores exatos dos pagamentos, mas reconhece que são compatíveis com os pagamentos e projetos realizados.
Já Roberto Cláudio Oliveira Figueiredo, da Ouriço Design e Decoração de Interiores, disse que desenvolveu o primeiro no final de 2011, na casa de Susana Cabral, primeira mulher do ex-governador, também envolvida no esquema de pagamento paralelo – na Operação Eficiência, ela foi levada à Polícia Federal sob condução coercitiva. Roberto declarou que assinou a decoração de interiores do quarto de um dos filhos do casal, João Pedro. O apartamento fica na avenida Borges de Medeiros, na Lagoa.
Em 2012, o decorador fez também o projeto de decoração de interiores do quarto de Marco Antônio Cabral. Em 2014, disse Roberto, foi contratado por João Pedro Cabral para cuidar da reforma e o projeto de decoração de interiores de seu apartamento, na rua Alexandre Ferreira, na Lagoa. De acordo com o decorador, esse projeto só foi finalizado em 2016.
O decorador disse que os projetos de Susana foram pagos mediante transferências bancárias e que o de João Pedro foi pago por meio de depósitos não identificados na conta da Ouriço Design, no valor aproximado de R$ 150 mil.
Itens que Cabral comprou com dinheiro suspeito de propina
Vestidos para Adriana Ancelmo – As investigações da Operação Lava-Jato no Rio apontam que o suposto dinheiro recebido como propina por Cabral foi usado para pagar seis vestidos de festa feitos sob medida para a ex-primeira-dama Adriana Ancelmo. As peças custaram R$ 57.038 e foram pagas por meio de depósitos em espécie.
Ternos italianos para Cabral – O Ministério Público Federal descobriu pagamentos de até R$ 156 mil em ternos italianos da marca Ermenegildo Zegna, usados por Cabral, entre 2014 e 2015.
Cachorro-quente para festa – De acordo com o MPF (Ministério Público Federal), foram gastos R$ 1.070 fruto de propina para pagar o cachorro-quente da festa de Mateus, o filho de Cabral. O pagamento foi feito em 14 de outubro de 2015.
Contas da ex-mulher – A ex-mulher de Cabral, Susana Cabral, é apontada como destinatária de R$ 883 mil entre 2014 e 2016, segundo planilha de delatores. O dinheiro era utilizado para pagar contas pessoais, como gás, luz, IPVA e cartão de crédito. Susana afirmou, em depoimento, que recebia entre R$ 15 mil e R$ 20 mil por mês do ex-governador.
Móveis de escritório e parcelas de carro – Além dos vestidos para a ex-primeira-dama, Cabral teria usado suposta propina para comprar móveis de escritório, equipamentos e máquinas agrícolas, aparelhos gastronômicos, dois mini buggys, eletrodomésticos, além de pagar a blindagem de carros e parcelas de novos veículos. Essas despesas foram estimadas pelo MPF em R$ 950 mil.
Reforma de imóveis – Dois decoradores que trabalharam para Cabral admitiram que foram pagos pela contabilidade paralela de Carlos Bezerra, apontado como operador do ex-governador. Foram ao menos sete projetos realizados somente por Ana Jucá. Investigadores apontam repasses de R$ 560 mil.
