Os efeitos da crise econômica no rastro da pandemia de coronavírus serão de curto prazo. No máximo, duram até o fim do ano. A avaliação é de Arturo Bris, professor de finanças e diretor do Centro de Competitividade Mundial da escola de administração IMD, um dos centros acadêmicos de finanças mais respeitados do mundo, localizado em Lausanne (Suíça). Segundo ele, o pânico nos mercados até agora causou perdas que representam apenas a metade dos estragos causados na crise global de 2009.
Nos últimos anos, Bris não cessou de prever uma nova crise econômica global. Agora ele acha que mercados e empresas podem emergir das atuais turbulências mais preparados para a próxima e “evitar a reação exagerada e o pânico” mesmo durante situações “impensáveis”. Para o professor, as companhias desde já precisam planejar a retomada depois do surto. Leia alguns trechos da entrevista que Bris deu ao jornal Valor Econômico:
– 1) O pânico global nos mercados atualmente se justifica? “O pânico está se materializando. É verdade que nos primeiros dias houve a correção, depois falamos de crash e agora de pânico no mercado. Na realidade, creio que os sinais do mercado são também mais otimistas do que dizem os preços dos ativos. Há uma reação excessiva no curto prazo. Mas temos que levar em conta que essa situação nos mercados não vai ser de larga duração. Essa crise não vai ser como a de 2008”, diz Bris.
– 2) Por que não? “O fator mais importante é que em 2008 tivemos uma crise bancária. Ela começou nos bancos e se espalhou para a economia real por meio do crédito. E sem crédito, chegou a recessão. Todas as crises econômicas são crises bancárias. E no caso atual, em 2020, não temos crise bancária, pelo menos no momento. Isso porque os bancos estão sadios, as taxas de juros são baixas. E porque por exemplo, o Banco Central Europeu (BCE) e outros bancos centrais estão adotando medidas para ajudar a economia. Não estamos numa crise global, pois não afeta a todos os setores e todos os países por igual.”
– 3) O senhor tem uma dimensão dos prejuízos já ocorridos na crise atual nos mercados? “As quedas que tivemos até agora são mais ou menos a metade das quedas em 2008. Ainda resta espaço para quedas nos mercados. A baixa de 2008 foi muito maior do que agora.”
– 4) Quanto foi até agora a baixa? O senhor prevê mais queda? “É difícil dizer; no momento, os mercados continuam caindo. Mas o “business sentiment” é muito negativo e o mercado está reagindo de maneira irracional. Tudo se passa em torno de expectativas e não de situações reais. Temos que esperar que os mercados se acalmem para termos o impacto real dessa crise.”
– 5) Há dois anos o sr. previa uma nova crise global, que começaria na China? É o caso agora? “Não esperávamos que sucedesse dessa maneira, e por essa razão, o coronavírus, mas esta é a nova crise que estávamos esperando. Os mercados estavam esperando um ajuste, o que não sabíamos é quando ia começar esse ajuste. E o que aconteceu é que se juntou guerra comercial, crise do coronavírus, problema no mercado de petróleo, debilidade da economia da China, e o mercado tem essa reação tão negativa.”
– 6) Estamos na direção de uma nova recessão global? “Creio que não. Porque os efeitos dessa crise do coronavírus vão ser de curto prazo. Muito depende de como os países reagem. Mas, no pior dos casos, a crise vai durar até o final do ano. Isso porque já vimos o exemplo de como a China reagiu rapidamente à epidemia. Agora outros países na Europa e na América vão seguir esse modelo para conter a epidemia em semanas ou meses. Em todo caso, essa instabilidade forte vai durar de quatro a cinco meses, com muita volatilidade no mercado nesse período”, diz Bris. As informações são do jornal Valor Econômico.
