Geralmente em sintonia com Jair Bolsonaro (sem partido), o empresário Luciano Hang passou recentemente a discordar do presidente da República em um ponto. O dono das lojas Havan aderiu ao movimento de empresários que pedem a volta do horário de verão, extinto por Bolsonaro em abril de 2019.
“O fato de ganharmos uma hora durante o dia faz com que a roda da fortuna gire mais e influencia positivamente toda economia, principalmente setores importantes, como o turismo, bares, comércios, restaurantes e automaticamente gera mais empregos também nas indústrias”, escreveu Hang em sua conta no Instagram.
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“Além disso, com o dia mais longo, as pessoas vivem melhor, vão às praias, praticam exercícios e têm mais qualidade de vida”, completou.
O posicionamento do empresário amigo não comoveu Bolsonaro, que voltou a defender sua decisão de acabar com o horário especial.
“O horário de verão foi comprovado que não tem ganho financeiro e a maioria é contra porque mexe no relógio biológico”, afirmou o presidente a apoiadores, na porta do Palácio da Alvorada.
Ao fim de junho, empresários dos setores de turismo, bares e restaurantes encaminharam ao presidente uma carta reivindicando a volta do horário de verão este ano.
No documento, os representantes do setor privado argumentam que a hora a mais de claridade no fim de tarde impacta positivamente os negócios e seria de grande ajuda após a forte queda de faturamento sofrida por esses setores na pandemia.
Especialistas em energia e infraestrutura avaliam ainda que a medida seria de grande relevância no atual quadro de crise do setor elétrico, provocada por uma seca histórica, que levou o nível dos reservatórios hidrelétricos ao patamar mais baixo em décadas.
Diante das múltiplas pressões pela volta do horário de verão, cabe a pergunta: valeu a pena acabar com ele em 2019?
Os especialistas avaliam que não. E mesmo quem acha que a medida pode ter sido acertada em 2019, defende que agora é hora de revertê-la.
Esse ano é imprescindível
O professor do Instituto de Economia da UFRJ e coordenador do Gesel (Grupo de Estudos do Setor Elétrico), Nivalde de Castro, destaca que o contexto do setor elétrico mudou de 2019 para este ano.
“Há dois anos, o equilíbrio entre oferta e demanda de energia estava tranquilo, então uma economia de 2% a 3% do consumo não era tão imprescindível”, diz Castro.
“Mas, atualmente, estamos enfrentando problemas para atender a demanda de energia elétrica justamente na hora em que escurece”, afirma, lembrando que o horário de verão tem o objetivo de “empurrar” a demanda por energia para mais tarde, aproveitando a luz natural.
“Diante da crise hidrológica deste ano, o horário de verão faz todo sentido, porque ele evita um consumo a mais, do que numa situação em que não haja horário de verão.”
Bares e restaurantes
Paulo Solmucci, presidente da Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), é um dos signatários da carta dos empresários endereçada a Bolsonaro pedindo a volta do horário de verão.
O executivo lembra que, em 2019, o setor não se manifestou quando o presidente decidiu acabar com o horário diferenciado, mesmo sendo prejudicado pela medida.
“Naquele momento, houve um conjunto de argumentos para justificar a decisão: a baixíssima economia [de energia], o fato de que uma parcela da sociedade, como as crianças que acordam cedo para ir à escola, encontravam o dia ainda muito escuro”, lembra o representante.
“Então, naquela ocasião, não nos manifestamos em contrário, ainda que estivéssemos perdendo com isso, porque o brasileiro tem baixo hábito de fazer happy hour, mas quando há horário de verão ele tende a ficar muito mais na rua.”
Solmucci explica que o setor resolveu trazer esse pleito agora porque, para os bares e restaurantes, “o mundo desabou de lá para cá”.
“O nosso setor, mesmo de portas abertas, tem 77% das empresas ainda operando com prejuízo. Então, na nossa visão, qualquer real que entre a mais vai ser muito importante, e o horário de verão sempre trouxe esse faturamento adicional na primeira hora da noite”, afirma.
O porta-voz do setor de bares e restaurantes diz ainda ter esperança de que Bolsonaro mude de ideia.
